sábado, 29 de fevereiro de 2020

A confiança cega nos meios de comunicação

ENCORPANDO A VITAMINA: Este texto eu escrevi anos atrás e o tema ainda está valendo. Embora no texto eu não falei muito da influência política da mídia corporativa brasileira que conseguiu enganar toda uma população a ponto de fazê-la lutar contra os seus próprios direitos.

A grande mídia sempre foi a porta-voz do grande empresariado. Não somente os donos mas também os patrocinadores exigem que a grande mídia somente veicule informações sob o ponto de vista das elites, o que frequentemente consegue distorcer a informação difundida, escondendo a realidade do receptor da tal informação.

A mídia alternativa, aquela que não é sustentada por gigantescos empresários, tem se esforçado em divulgar a realidade como ela é, mas não somente os recursos mas também o alcance dela é muito reduzido. Há muita gente no Brasil que só tem a grande mídia como única fonte de informação, pois ela, cheia de recursos, consegue penetrar nos lugares mais longínquos e isolados do país.

É preciso que a educação prepare o individuo brasileiro a ão engolir a informação como ela é difundida, mas compará-la com os fatos e com a lógica. Se estivéssemos acostumados a pensar - e o brasileiro sempre foi desestimulado a pensar, embora gostasse de ser chamado de inteligente - analisaríamos tudo que nos chega aos nossos olhos e ouvidos e não aceitaríamos quaiquer informações vindas de um meio que ainda consideramos confiável, mas que atende plenamente os interesses particulares de uma classe de que a maioria dos brasileiros não faz parte.

A confiança cega nos meios de comunicação

Marcelo Pereira - Planeta Laranja, 24/11/2014

Não é a toa que chamam a imprensa de "quarto poder". Não somente pelo poder político que os donos dos meios de comunicação possuem, como pelo fato da imprensa ter se transformado em uma "instituição respeitável", quase como uma espécie de "sinônimo" de democracia. A democracia só é possível, de fato, na Anarquia, mas por representar uma ideia nobre e benéfica, a população resolveu pegar emprestado e "apelidar" a imprensa com esse nome.

Trocando em miúdos: encaixotaram a utópica ideia de que a democracia só é possível com a existência da liberdade de imprensa, como se quem controlasse a imprensa fosse gente como eu, você e seu cachorrinho de estimação. Não é.

Como seria lindo se houvesse uma imprensa que nos representasse. Mas isso não é a realidade. Quem possui e controla a imprensa são empresários com sede de poder político. Agem como políticos, sim, mas da iniciativa privada. Agem como políticos, pensam como políticos, mas sua única diferença é que o salário deles não vem dos impostos que pagamos e sim dos lucros que eles obtém graças a venda de seu maior produto: notícias.

Tratar notícias como mercadoria compromete muito a verdade e a imparcialidade que deveriam ser características da imprensa. E o produto, para vender deve ser moldado - alterado - para que possa ser aceito e que o receptor possa "comprá-lo, garantindo o lucro do emissor da notícia. Estamos cansados de saber que verdade não rende dinheiro. Que se divulgue não os fatos e sim aquilo que os donos da mídia querem que o povo saiba.

Voltamos aos tempos do leitor de pergaminho medieval (Idade Mídia?) contratado pelo rei a noticiar as coisas do ponto de vista das elites dominantes. A imprensa, de fato, é a voz do dono e acreditar que ela representa a população é de uma tolice pueril que já deveria ter desaparecido de nossas mentes quando completamos 7 aninhos de idade.

Como achar que empresários riquíssimos e com poder político suficiente para mandar em presidentes da república (exceto nas "ditaduras" que resolveram disciplinar a atividade midiática em seus países) possam representar os interesses do mais rudimentar integrante da plebe social?

Curiosamente quem defende a ideia de que a imprensa nos representa são os defensores do Capitalismo e das ideias de direita, que tratam os poderosos donos dos meios de comunicação como se fossem trabalhadores tão sofridos quanto o mais humilde faxineiro. Com a onda direitista surgindo em nossa sociedade nos últimos anos, a confiança cega na imprensa tem aumentado bastante, após uma vertiginosa queda durante longo tempo. Reaprendemos a confiar nas mentiras que a mídia, nossa reguladora social, controlada por gente que não quer o nosso benefício, diz.

Há muito a imprensa NÃO nos representa. A mídia age como regulador social e a liberdade sem freio da imprensa é a liberdade do poder de manipulação social. Talvez queiramos que a imprensa seja livre para que possamos continuar sendo manipulados. Para que nossas ilusões possam se manter intactas, freando a evolução social, nos mantendo na eterna infância que permite que vivamos num mundo de faz-de-conta, onde grandes homens de negócios, ignorantes de nossa existência, possam nos representar na hora de exigirmos nossos direitos.

Até porque, seja por preguiça, seja por tradicional modismo, recusamos a querer lutar pela resolução de nossos problemas, preferindo entregar a outrem a responsabilidade de melhora as nossas vidas. E ninguém melhor que os donos da imprensa para "lutar" pelos nossos sonhos (leia-se ilusões).

Não confio na imprensa e sou a favor de seu controle. Controle não é censura e sim o ato de disciplinar a responsabilidade midiática. Tolice acreditar que dar liberdades a um poderoso empresário de comunicação é dar liberdade à sociedade. Até porque a liberdade do empresariado limita a liberdade da população e vice-versa. Alguma coisa precisa ser feita para conter os abusos empresariais dos donos da mídia.

Com o fim da ditadura militar, perdemos o verdadeiro sentido da palavra democracia. A mídia quer nos convencer de que a democracia é a própria mídia e pede para que lutemos por ela, pensando estar lutando pelos interesses da coletividade. Mas no fim, um empresário trancafiado em um escritório luxuosos e refrigerado em sua gigantesca mansão, terá a sua privilegiada condição de vida ampliada por causa de milhões de ingênuos a acreditar que a empresa dele seria a porta voz de nossos interesses. Povo tolo. 

A imprensa é o nosso Don Quixote. Move moinhos, mas não resolve problemas. Mas é considerada a nossa maior "salvadora". Mesmo que seja para nosso mal.

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