Eu não sou muito fanático por Carnaval, apesar de gostar um pouco. Não acompanhei as escolas de samba, como faço todos os anos, pois aproveito os festejos momescos para fazer minhas coisas pessoais. Mas estava torcendo pela Mangueira, a escola mais popular do Brasil, por causa do tema que contestava mitos religiosos. Embora normalmente tenha simpatia pela Portela.
Mas a Mangueira nem chegou perto. O tema religião é tabu no Brasil e muitos seguidores não admitem quaisquer alterações na interpretação dos dogmas, que eles acreditam serem verdadeiros, por mais surreais que possam parecer. Pena. A disputa pelo primeiro lugar ficou entre a Grande Rio, de Duque de Caxias e a Viradouro, de Niterói, cidade onde ainda moro, por enquanto.
Eu nem sabia qual era o tema do samba-enredo deste ano da Viradouro até saber da vitória tensa (disputou pau-a-pau, com oscilações, com a Grande Rio) da escola, que não ganha há 23 anos. O tema, pasmem, foi sobre as mulheres ex-escravas de Salvador, Ganhadeiras de Itapuã. Niteroienses falando sobre Salvador! O que eu tenho com isso? Na verdade, tudo.
É uma coincidência uma escola de samba de Niterói ganhar um campeonato de escolas de samba falando sobre Salvador, justamente quando estou prestes a sair de uma cidade para ir para outra. Estou arrumando a minha vida para favorecer o meu retorno a Salvador, onde vivi entre 1990 e 2008, por motivos pessoais, facilitando interesses particulares meus.
O povo que mora em meu bairro gritou com satisfação pela vitória da escola. Fiquei feliz com isso, embora não estivesse torcendo por ela, por desconhecer seu enredo. Mas deveria ter conhecido, pois seu soubesse do tema, teria torcido pela Viradouro.
Aliás, foi um enredo que na verdade, foi tão politizado quanto os das outras escolas mais destacadas, apesar de não tão impactante. Pois a Viradouro optou por se manifestar contra a escravidão, que voltou agora sob o nome de "reforma trabalhista", embora seus defensores insistam em desfazer a associação entre os termos. Nossas elites são tão escravocratas quanto os senhores de engenho do Brasil colonial, afinal são formadas por herdeiros e/ou sucessores deles.
Interessante esta coincidência de ver uma escola niteroiense falando sobre Salvador. Seria uma forma gentil de despedida para mim, após viver cerca de 11 anos - na fase recente. Já morei em Niterói entre 1972-1977, 1981-1990 e entre 2008 e possivelmente 2020. E me encontro na esperança de voltar a terra que eu tanto subestimei e que ajudou outra cidade a ganhar o Carnaval. Valeu, Viradouro!

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