Cerca de 20 anos atrás, eu comecei a ouvir falar de redes sociais. Cinco anos depois fui me apresentado a uma. Apesar de decepcionante na maioria das vezes, graças a natureza mesquinha da humanidade em modo beta, nunca as redes sociais tiveram tanta utilidade como agora, quando somos obrigados a nos isolar para evitar uma doença fatal que se alastra com facilidade.
A espécie humana é social. Seres humanos não conseguem viver sozinhos. Por instinto, gostamos de pertencer a grupos. Muitos dos benefícios necessários á vida, como emprego e vida afetiva (namoro, casamento) são adquiridos por decisão de outras pessoas e facilitados pela vida social. Agora imagine, na situação atual, quando somos obrigados a nos isolar para nos proteger?
O problema é mundial, mas no Brasil, quando pessoas são ainda mais sociais que o resto da humanidade, a ponto de moldar gostos e opiniões para agradar a maioria, o incômodo é amplificado. Se o coronavírus promete fazer mais estragos no Brasil, o isolamento também. Além de mortos pela doença, podemos ter um risco alto de suicidas que não suportaram a ausência de uma vida social ativa.
Ainda bem que existem as redes sociais, para amenizar a nossa solidão. Claro que isso não nos faz sentir acompanhados de fato, mas pelo menos serve para amenizar o sentimento de solidão. Mesmo longe, podemos interagir com outras pessoas e fugir não somente da solidão como também do tédio.
Por isso as redes sociais ganharam um novo sentido neste período de quarentena social. Assim, podemos, além de nos manter informados, ter a oportunidade de obter e transmitir afeto, mantendo, mesmo que de forma precária, a vida social tão necessária a nossa espécie, curiosamente ameaçada por um vírus que pode ter utilizado como uma arma de guerra de uma nação gananciosa ao norte do continente americano.
A quarentena está prevista para durar longuíssimos dois meses. Há quem fale que as coisas só normalizarão em agosto. Mas a maior dúvida não é quando irá acabar esta fase, mas o que virá depois. Pois tenho certeza que a humanidade não será a mesma, após ficar tanto tempo trancada.
A experiência prova que longos períodos de isolamento geram danos irreversíveis no caráter das pessoas. É um grande mistério tentar adivinhar o que virá quando voltarmos a nos encontrar presencialmente. Isso se sobrevivermos até lá.

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