Quase ninguém fala, mas percebo que há uma duologia nos álbuns The Unforgettable Fire (1984) e The Joshua Tree (1987) do U2 e que ambos são álbuns quase conceituais, quase temáticos. Se considerarmos a coletânea de sobras e faixas ao vivo Rattle and Hum, temos uma trilogia. Se observarmos o que aconteceu com a banda, que nos anos 90 estava radicada nos EUA, vamos notar isso.
Claro que esta postagem é subjetiva, com base em interpretações minhas, baseadas no que eu sei sobre a banda, uma de minhas favoritas. Mas quem quiser informações mais objetivas, recomendo que clique estes dois links so Wikipedia sobre The Unforgettable Fire e The Joshua Tree. Em inglês, pois lá as informações estão mais completas do que nos verbetes em português.
O álbum The Unforgettable Fire (fire, aqui, é metáfora; observando a letra, podemos traduzir o nome do álbum como "A paixão inesquecível") é uma espécie de despedida da terra natal, no caso Dublin, na Irlanda, para se preparar para a ida a um outro país, no caso os EUA. Embora o título do álbum seja referência a um quadro japonês sobre o desastre de Hiroshima.
Nas letras, há tanto a declaração de amor a terra natal, como referências a nova pátria, sobretudo nas faixas que lembram o assassinato cruel de Martin Luther King, na ode a Elvis Presley em Elvis Presley and America e na instrumental que recebeu o nome de 4th of July.
Decepção com a "nova pátria"
Se o álbum anterior representava um "arrumar das malas para a viagem para os EUA", The Joshua Tree representaria a chegada aos EUA, "onde as ruas não tem nome", de forma um pouco decepcionante, sobretudo nas referências ao governo neoliberal de Ronald Reagan. Daí a referência ao deserto, como uma pessoa que chega a um lugar esperando algo e encontra o nada.
Em matéria de sonoridade, o álbum repete, a sua maneira, as ousadias do álbum anterior, acrescentando mais elementos, como o blues, guitarras espanholas e melodias um pouco agressivas. é neste álbum que encontramos a primeira música assumidamente romântica do U2, With or Without You. No álbum há também temas religiosos, já que os integrantes são católicos assumidos.
As capas dos dois álbuns seguem o mesmo estilo (com fotos do fotógrafo favorito das bandas alternativas, o holandês Anton Corbijn), tem o mesmo produtor o ex-Roxy Music (banda liderada pelo hoje chique Bryan Ferry) Brian Eno e engenheiro (e também co-produtor) Daniel Lanois (produtor do perfeito So, de Peter Gabriel, o que justifica a participação deste em uma versão alternativa para A Sort of Homecoming, incluída como bônus na nova versão de T.U.F.).
Posso estar sendo um pouco equivocado em classificar os dois álbuns como parte de uma duologia. Mas gosto de imaginá-los assim, embora ache T.U.F. muito mais agradável de ouvir que Joshua, que para mim é um álbum de altos e baixos, do contrário do impactante álbum de 1984, que ouço direto sem pular faixas.
Aliás, considero The Unforgettable Fire o melhor álbum do U2 até hoje, tanto em preferência pessoal (o que gosto de ouvir), como em valor cultural (importância para a carreira da banda e para a história da música).
The Unforgettable Fire, para mim, um álbum realmente inesquecível
A propósito, The Unforgettable Fire tem um significado importante para mim, pois ganhei o álbum de mais pais no meu aniversário de 15 anos, em 21 de março de 1986. Recomprei em vinyl - já como Polygram (atual Universal), em 1996, com objetivos de atualização, já que a anterior ainda era fabricada pela Warner, que vendeu os direitos de distribuir a Island Records.
Comprei mais três edições em CD (uma com capa lilás - os primeiros CDS tinham cor alterada - outra com capa roxa, a mesma do vinil e a versão remasterizada de 2014, com um CD bônus). Em todas as vezes em que comprei o álbum, em várias versões, aconteceram coisas bem boas em minha vida particular, transformando o álbum em uma espécie de souvenir desses bons momentos. Um álbum inesquecível, para fazer trocadilho com o título.
Duas referências pessoais nas canções : eu havia dedicado a faixa título a uma paixão minha de adolescência (sem ela saber), pois pensava nela toda vez que eu prestava atenção na letra. A Sort of Homecoming (a oportunidade de voltar para casa) é o meu tema para a minha volta a Salvador, ainda em andamento. Outra coisa: meu pai considera Bad a música do U2 que ele mais gosta.
Já o The Joshua Tree, comprei em cassete em 1991 e em CD em 1998. Nada de pessoal aconteceu em especial em relação a este álbum, que apesar de não ser um dos seus melhores, é ainda melhor do que qualquer álbum que a banda é capaz de fazer desde 2000, quando a crise de criatividade contaminou a banda que curiosamente nunca mudou de formação desde 1976, quando surgiu.

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