A vida adulta não é espontânea. Como os adultos vivem de compromissos, eles se acham obrigados a seguir uma série de rituais para obter aprovação e admiração social e consequentemente os benefícios que somente o bom convívio com outras pessoas pode oferecer. O casamento é um desses rituais.
Para quase toda a totalidade das pessoas, principalmente no lado ocidental do planeta, é essencial que cada pessoa fique vinculada a outra, como se algum ser humano pudesse ser propriedade de outro. A isso se chama casamento e quem não possui a sua "metade" se sente sozinho, é tratado como "perdedor" (mal-amado) e perde no mínimo o respeito social, não raramente se tornando objeto de chacotas.
Legal mesmo é ter a sua "metade". Mas isso esbarrara no instinto humano, que não é o de um ser monogâmico. Humanos são poligâmicos por natureza e a monogamia foi imposta pelas religiões como meio de criar padrões fixos de família.
O amor-livre reivindicado no final dos anos 60, adequado a natureza poligâmica da humanidade, caiu em desuso. Nem mesmo os esquerdistas, metidos a querer mudar o mundo querem saber do amor-livre, preferindo relacionamentos estáveis cada um com a sua "metade", seguindo o que o Jesus medieval, mestre das catacumbas, mandou.
A obrigatoriedade do casamento cria uma situação que é contraditória: a necessidade de vínculo com outra pessoa, junto com a necessidade de se manter afastado dela periodicamente. Casais-grude, eu vivem a maior parte do tempo junto, causam nojo nas mesmas pessoas que reprovam o amor livre. O que significa que a função do casamento é criar vínculo, não em criar uma vida a dois.
Isso explica porque a maioria dos casais ou não se ama, ou não tem afinidades, ou nenhuma das duas coisas. Casar com a metade literal é quase impossível e depende de uma sorte extrema.É muito mais fácil ganhar milhões na loteria do que se casar com uma pessoa com afinidades quase totais.
Geralmente, na melhor das hipóteses, casamentos bem sucedidos ocorrem, no mundo atual, com um nível de 40% de afinidade. Mesmo assim, não é raro que um dos cônjuges tenha que ceder para conviver pacificamente com o outro, que antes de conhecer seu parceiro, foi educado em um ambiente totalmente diferente da pessoa com quem se casou.
Afinidade e amor juntos, nunca separados, nem ausentes
O ideal que casamentos só pudessem envolver pessoas que se amam e se afinam totalmente, com as duas coisas juntas. Uma delas ausente não dá. Amor conjugal sem afinidades resulta em brigas. Afinidade sem amor conjugal é coisa de amiguinho, não casamento. A ausência das duas é pura catástrofe, relacionamentos feitos para caírem na ribanceira e se espatifar.
Só que mais ideal ainda seria que ninguém se casasse. Romantismo, num mundo tenso e competitivo, onde a ganância capitalista faz as leis, torna a vida a dois como coisa de novela e de cinema. É impossível reconstituir com perfeição aquilo que nos faz chorar quando assistimos aquele pomposo filme romântico no cinema ou na sessão da tarde de uma televisão.
O instinto humano pede o fim dos casamentos. É mais democrático. Ninguém se sente excluído e todos os homens e todas as mulheres podem se curtir, sem padrões, sem interesses, sem hipocrisia. Mas queremos rituais e o casamento ainda é uma oportunidade de obter respeito social.
Enquanto for assim, vamos querer nos casar, mas mantendo todas as injustiças existentes nos outros setores deste mundo perversamente ganancioso. Casamentos entre pessoas que não se gostam e não se afinam criados somente para agradar aos outros e se sentir incluído socialmente. Até que a sensatez os separe.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.