Embora o senso comum viva alardeando a todos os lados de que ninguém é obrigado a gostar de futebol, isso não é posto em prática no Rio de Janeiro. A simples declaração de desprezo ao futebol e a recusa em assumir um "time do coração" cria um clima tenso nas relações sociais no estado e não raramente terminam em inimizade, com sérios danos gerados para quem não curte a popular modalidade esportiva.
Porque isso acontece? Porque a simples recusa de um hobby gera tanta discórdia? Porque quase não existem cariocas - principalmente famosos - que assumem o desprezo de futebol. Porque quase todo carioca famoso tem que ter um "time do coração" na carteira de identidade?
Bom, uma das brincadeiras favoritas dos cariocas é trollar torcedores do time oposto e bajular os do mesmo time. Falar sobre futebol é diversão no RJ, que gosta de dividir a sociedade em 4 grupos sociais de acordo com os 4 mais bem sucedidos times cariocas: Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo. Como se fossem 4 territórios e os torcedores, os seus habitantes.
Imagine o Rio de Janeiro como um pátio de colégio onde, no recreio, todos os estudantes combinam que todos devem participar de uma só brincadeira e quem se recusar fica abandonado no canto, sozinho, sem obter os benefícios da sociabilização.
O futebol é esta brincadeira e quem se recusa é automaticamente rotulado de "estranho", de "antipático", "daquele que não gosta de nada" ou até de coisas piores, perdendo direitos que seriam muito mais fáceis se ele tivesse aceitado a facilidade de convívio social que o futebol proporciona. Todos sabem muito bem que namoro e emprego são muito mais facilitados pela vida social. Quanto mais amigos, mais fácil será para se empregar e para contrair matrimônio. O futebol facilita isso.
Mesmo não escrita em algum documento e ausente na Constituição Federal, a regra que impõe o gosto pelo futebol é cobrada de forma rígida e sua desobediência punida de forma implacável através da exclusão social. O sistema entendeu que o futebol seria o melhor agregador social e por isso o utiliza como falsa concórdia de uma sociedade que deveria ser diversificada.
Todos no RJ sabem disso e por mais chato que seja ficar diante de uma tela verde por quase duas horas vendo bonequinhos correndo pra lá e pra cá, todos arrumam seu "time do coração" e obter o mínimo de informação sobre ele. Mesmo que não assumam, sabem muito bem que para aquele que não viu a rodada das tardes de domingo ou das noites de quarta, a conquista de vários benefícios será bem mais complicada.
Para os cariocas, o grito de gol é um grito de socorro pela sobrevivência, com garantia de ajuda alheia. Para uma sociedade conservadora, cumprir regras impostas vem antes de qualquer coisa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.