Foi uma surpresa para muita gente o falecimento hoje, de Moraes Moreira, cantor marcado por fazer canções ao mesmo tempo alegres e inteligentes, sendo um dos maiores compositores da MPB. Tinha 72 anos, mesma idade de meu pai.
Quando a notícia foi dada, não foi informada a causa mortis. Só há poucos minutos eu soube que foi de enfarte. Embora ele tenha deixado um poema sobre a pandemia (ver abaixo), sua última composição. Que provavelmente será musicada por algum compositor.
Eu não iria escrever sobre o assunto, pois nunca fui de fato fã do cantor, embora gostasse de várias de suas músicas. Mas por reconhecer a importância cultural dele, principalmente na pouca falada união entre inteligência e festividade musical, achei melhor falar sobre o cantor, nem que seja só um pouquinho, para não ser pedante.
O que reforça a importância de Moraes Moreira é o fato dele ter estado presente em todo o processo de confecção de um dos melhores álbuns já lançados no Brasil, Acabou Chorare, junto com a sua banda, o Novos Baianos, que mal comparando, era o Velvet Underground tupiniquim. Seria Moraes o nosso Lou Reed? O álbum foi lançado em 1972, um ano após eu nascer.
Particularmente, eu não me identifico com este album, embora ache a sua sonoridade agradável. Mas é impossível discordar de sua importância cultural. É um álbum de nível internacional. É um dos melhores já produzidos no Brasil e há quem diga que seja o melhor.
Acabou Chorare representou uma espécie de fechamento do movimento tropicalista e sua absorção pela música brasileira em geral. Trocando em miúdos, tirou o tropicalismo de seu isolamento cultural para consagrá-lo como influente em toda a música popular brasileira.
A renovação da MPB ocorrida desde os anos 90 comprovou que o tropicalismo seria quase totalmente influente para a geração que surgiu então, mostrando que o legado de Gil, Caetano e também dos Novos Baianos era forte.
O álbum também representou uma leitura bem brasileira da psicodelia - também destacada, mas de forma bem diferente pelos Mutantes, também integrantes do movimento tropicalista - fundindo a atitude roqueira dos hippies de Woodstock com a brasilidade revelada na Semana de Arte Moderna de 1922, um marco de extrema importância para a cultura brasileira.
E Moraes Moreira estava entre os que criaram este maravilhoso álbum, lançado pela Som Livre, quando esta não priorizava as trilhas de novelas e os cretinos breganejos que contrata hoje em dia. Emprestando a sua assinatura por um álbum reconhecido com quase unanimidade.
Moraes Moreira canta para a juventude
Outro momento marcante de Moraes foi o Unplugged MTV lançado em 1995, curiosamente pela efêmera filial brasileira da famosa Virgin Records, criada pelo magnata doido Richard Branson e que consagrou muita gente boa em seu cast, sendo importante selo fonográfico para a divulgação do krautrock , o rock progressivo alemão.
O Unplugged MTV gravado por Moraes foi uma das melhores edições do famoso programa em que um artista revisita a sua carreira usando apenas instrumentos simples, de preferência sem interferência de energia elétrica, como em um sarau ou em uma roda de estudantes universitários.
Falando em universitários, a apresentação serviu para apresentar Moraes aos jovens de então, o que comprovou a jovialidade de sua música, pois a facilidade de conversar com os jovens era uma característica de suas canções. Unplugged MTV também serve como uma coletânea de verões acústicas, pois as recriações ficaram muito boas "desplugadas". Para mim é outro grande momento de Moraes Moreira.
Recebi a notícia com tristeza, pois o tipo de som que ele fazia era necessário nos dias de hoje. Uma música que une a alegria carnavalesca - curioso que apesar de baiano, ele era mais influenciado pelo carnaval pernambucano, uma opção artística dele - com a inteligência típica da MPB, pois as suas letras eram sempre muito bem construídas e de uma inteligência peculiar. Quaisquer sejam os temas das letras.
Fica aqui a minha lembrança e o reconhecimento de sua importância para a cultura brasileira. Eu não era seu fã, mas isso não é necessário. Moraes, com a sua obra única, cravou seu nome na lista dos grandes compositores brasileiros. E este reconhecimento é eterno, não tem como a morte levar.

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