Brasileiros fazem parte de um povo conservador. Isso é uma realidade a ser aceita. isso explica o fato de que as esquerdas, por mais avanços que tenta dar, sempre esbarra nos limites da necessidade em preservar uma série de valores, já que não se pode mudar a essência do sistema. Mudanças, só pelas beiradas, em alguns aspectos.
Fica a impressão de que, além de preservar a essência de um mundo conservador, apenas incluindo as classes oprimidas nos benefícios deste mesmo mundo, as esquerdas sonham com um pensamento único a maneira delas. A saber:
- Manter o sistema capitalista como está, apenas dando oportunidade a pobres, gays, mulheres, índios e outras classes oprimidas a terem um salário suficiente para consumir de acordo com as regras do mercado;
- Preservar o conceito tradicional de família, apenas variando a sua composição, permitindo relações homo-afetivas ou poligâmicas. Amor livre, nem pensar!;
- Respeitar o futebol como símbolo máximo nacional - mais até do que bandeira, hino e povo - obrigando a cada brasileiro a ter um time na carteira de identidade e a adesão máxima em copas;
- Entender a cultura, mesmo comercial e criada em laboratório, manipulada por produtores profissionais, como expressões legítimas de um povo e capazes de mudar o mundo, sobretudo politicamente, mesmo que seja feita só para dançar;
- Reconhecer os bares e boates como principais locais de sociabilização e considerar aqueles que não curtem tais estabelecimentos como anti-sociais de extrema-direita, dignos de exclusão social;
- Solitários que se virem se quiserem arrumar alguém para se relacionar;
- A pequeno-burguesia tem direito de ter uma avida melhor que a classe trabalhadora, mesmo falando a favor desta, sem abrir mão de certos privilégios.
- Religiosidade é indispensável, respeitável e mesmo sem provas, a existência de Deus é algo que deve ser aceito sem contestação, relegando os ateus à clandestinidade.
Estes pensamentos são resumo daquilo que observo ad nauseam et ad infinitum, em vários portais de esquerda, através de comentários e atitudes. A esquerda brasileira como um todo, não está interessada em mudar o planeta, mas incluir mais gente para ser beneficiada no mundo já existente.
Nos discursos, os esquerdistas falam repetidamente em mudar o mundo. Mas como mudar o mundo mantendo sua essência, suas principais características? Como alguém que critica o pensamento único de direita, não somente deseja criar seu pensamento único como também incorporar neste características de um modo de vida já consagrado pelas forças conservadoras?
A esquerda brasileira, na verdade, não está interessada de fato em melhorar nada. Composta em sua maioria esmagadora por integrantes da classe média alta, muito bem alimentada e com recursos vastos a ponto de viajarem para o exterior só para comprar pão, é complicado para elas entender como um pobre sofre. Essencialmente egoístas por instinto, seres humanos só entendem o sofrimento quando começam a sofrer.
O pensamento único de esquerda mostra que os esquerdistas, integrantes de uma classe relativamente privilegiada que alega estar a favor das classes oprimidas, sem tomar a iniciativa para as mudanças necessárias para que construamos um mundo mais justo, são conservadores, embora um pouco menos que a direita moderada (neoliberal, tipo PSDB) e menos ainda que a extrema-direita.
O certo seria as esquerdas reverem seus conceitos e exigirem um mundo diferente, com outras convicções, gostos, costumes, diferentes das do tradicional mundo direitista, para que a ruptura seja total, criando um mundo que pudesse realmente ser justo, para que pessoas não sejam obrigadas a "seguir a manada" para se sentirem incluídas socialmente.
Se as esquerdas continuarem como estão, tudo fica como está e corre o risco de, derrubada a direita, as esquerdas criarem um outro mundo, igualzinho ao anterior, só que com esquerdistas no comando. Um mundo tão injusto quanto o anterior, eliminando do acesso a benefícios quem pensar diferente da grande maioria de alienados, que adere a uma tendência só para não ficar sozinho. É o preço que pagaremos por não querer mudar o mundo.

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