Na vida adulta, você se casa e deve ter filhos. É recomendável que você tenha uma religião, uma crença para seguir. Para se divertir, seu lugar é o barzinho e você tem que ter um time de futebol no coração. Você terá que consumir, ter pelo menos um carro, um celular e uma casa de preferência bem grande. A música que você terá que ouvir é a que seus amigos curtem e no cinema o procedimento deverá ser o mesmo. Durante o lazer você deverá relaxar e pensar o menos possível em política e em intelectualidade.
Leu o texto acima? Achou que era um texto de direita? Pode até ser. Mas a esquerda brasileira segue exatamente este roteiro. Ipsis Literis. Mesmo que haja algumas diferenças, como incluir pobres, negros e gays neste roteiro, é um projeto a ser seguido de forma rigorosa, sem alterá-lo.
Progressistas nos assuntos que envolvem política, economia e direitos humanos (este até certo ponto), as esquerdas brasileiras são conservadoras quando se trata de cultura, lazer, religião e na forma como as pessoas se relacionam.
O mais incrível não é apenas o fato dos esquerdistas serem conservadores nestes assuntos. Mas o rigor que as esquerdas tem em manter este roteiro inviolável. O roteiro é seguido com um rigor constitucional, como se existisse uma lei leonina que o estipule.
Isso explica o motivo que faz com que as esquerdas brasileiras não tenham espírito de ruptura, sendo condescendentes até mesmo com o Capitalismo. Há esquerdistas que desejam a manutenção do sistema capitalista, apenas o tornando um pouco mais justo. Lula e o jornalista e engenheiro Leonardo Stoppa pensam desta forma. Mesmo que o Capitalismo não permita de fato uma justiça plena e um bem estar a literalmente todas as pessoas.
Mas mesmo que a maioria dos esquerdistas sonhem com o fim do Capitalismo, o conservadorismo é nítido e explícito nas relações humanas. Adultos gostam de seguir rituais e a vida adulta exige um roteiro fixo a ser seguido por 90% das pessoas.
Casar, ter filhos, religião, carro, bar, futebol são coisas que os adultos se sentem obrigados a fazer, mesmo por decisão própria. A obrigatoriedade voluntária (quando a própria pessoa decide cumprir uma obrigação, sema existência de alguma ordem superior) é um fato real que ainda não se tornou tema de debates no Brasil, mas é um fenômeno digno de ser estudado.
Como a obrigatoriedade voluntária, apesar do rigor como ela é cumprida, é inconsciente ( a pessoa adere como uma estranha naturalidade, como se fizesse parte da biologia humana), é complicado para pedir uma pessoa para explicar o porquê da adesão a certos costumes. Quase sempre as explicações chegam em forma de wishful thinking (pensamento desejoso) ou outras formas subjetivas de justificativa, sempre usando suposições e não fatos.
Ou seja, para as esquerdas, são costumes biológicos e por isso, irrecusáveis. O que permite aos esquerdistas continuarem acreditando no seu anti-conservadorismo, mesmo tendo costumes conservadores. Afinal, se não vamos ao bar, nos divertiremos aonde? Sem o futebol, como vamos nos orgulhar de nosso país? Sem filhos, para quem vamos deixar nosso patrimônio? E por aí vai.
Esta crença no suposto caráter biológico de certos costumes faz com que os esquerdistas continuem se considerando "terrivelmente progressistas em todos os setores da humanidade", como se manter certos hábitos e gostos nada tivesse a ver com conservadorismo.
Além disso, para as esquerdas, que também acreditam em estereótipos - embora neguem isso - o conceito de "conservador" ficou muito vinculado ao direitismo e principalmente à extrema-direita. Ignoram que "conservadorismo" é o ato de querer conservar as coisas.
Frequentemente vemos esquerdistas defendendo costumes tradicionais, como futebol, religião e bebida alcoólica, por exemplo, nas redes sociais. Como acreditar que estão mudando o mundo defendendo costumes antigos, criados pela direita e integrantes do modo de vida capitalista?
Mas o certo é admitir que as esquerdas brasileiras não são progressistas em tudo. Brasileiros são conservadores. Como brasileiros, esquerdistas brasileiros tem que ser conservadores. Algumas mudanças sociais não são permitidas. Quebraria com o nível de formalidade que a vida social exige e que supostamente organiza uma sociedade diversificada como a nossa.
Mas eu gostaria de ver as esquerdas assumindo seu conservadorismo na cultura, no lazer e nas relações sociais. Para quem não se esforça a mudar o mundo, é bom que saiba que deseja conservar certos costumes, certos conceitos, certas ideias.

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