Uma das maiores características da vida adulta é o fato de que nesta fase da vida, os compromissos tomam conta de quase todo o cotidiano. Apesar de livre para decidir, o adulto é colocado em situações onde é obrigado a satisfazer as vontades alheias, para evitar conflitos e para obter benefícios.
Muitos dos benefícios são obtidos por decisão alheia e agradar aos outros acaba ganhando uma importância tamanha que a vontade e até o prazer do próprio adulto acaba sendo jogados para segundo plano. O que importa é garantir a sobrevivência por meio do agrado de outras pessoas, aquelas que nos darão o benefício desejado.
Trabalhamos em geral cerce de 8 horas por dia, 5 vezes por semana, exceto profissões com outras cargas horárias. Mas de qualquer forma, passamos a maior parte da vida adulta satisfazendo interesses alheios. Nos acostumamos tanto a isso que o cacoete acaba pegando e acabamos transformando a hora do lazer em compromisso, agradando os outros em troca de benefícios.
O desejo de fazer aquilo que pensamos gostar para agradar aos outros é o que eu chamo de Obrigação Voluntária. Com medo de ficar sozinhos ou simplesmente para agradar ao grupo social pertencente, transformamos as horas de lazer em outro "emprego", moldando nossos gostos, costumes e convicções de acordo com a maioria das pessoas, por mais desagradáveis que fossem.
As regras sociais costumam ser rígidas, mesmo que não sejam oficialmente legisladas. Apesar de não ter um responsável físico para exigi-las, esse tipo de regras é cobrado pela própria sociedade, através de amigos, colegas e pessoas próximas. O cumprimento dessas regras dá ilusão de acordo, cooperação e respeito mútuo. Mesmo que isso signifique, por exemplo, cair bêbado na calçada.
No Brasil, um país claramente conservador, a ponto de até mesmo as forças progressistas serem bastante conservadoras, as pessoas moldam seus gostos e costumes de acordo com as regras sociais, que são difundidas midiaticamente e cobradas com imenso rigor.
Apesar do rigor, as as pessoas fingem que esta obrigatoriedade não existe e surge um estranho "prazer" em ser obediente, com ostentações nas redes sociais do cumprimento de certas regras. Isso acontece em quase tudo, mas é mais nítido no futebol, na religião e no consumo de bebidas alcoólicas, situações onde as pessoas gostam de mostrar aos outros como estão seguindo.
Esse cumprimento de obrigações, ostentado de forma orgulhosa, é quase inconsciente, pois as pessoas não tem a consciência de estão cumprindo uma obrigação, apesar do fato de mostrarem aos outros fique com aquela cara de "Está vendo como estou cumprindo a minha obrigação? Me aceite socialmente!". Nunca o espírito de manada pareceu tão prazeroso como sempre foi e é no Brasil.
Isso explica porque em um país com vocação para grande diversidade em todos os setores, as pessoas tem gostos parecidos, variando pouco, mas sem variar em essência. Fica parecendo que religião, futebol e cerveja são coisas ultra-maravilhosas, quando de fato estão abaixo do medíocre.
É o poder que a adesão maciça de grande maioria da sociedade tem para aumentar a importância daquilo que não é importante. Copiar a maioria é um item de sobrevivência, pois a cada dia sempre dependemos mais de outras pessoas e moldamos nossos gostos, costumes e convicções como moedas de troca pela aceitação social.
Pior que fazemos isso voluntariamente. Gostamos de obedecer, de sermos submissos. Mesmo que isso cancele nossas verdadeiras fontes de prazer e de razão. Até que isso nos deixe de nos beneficiar. Quando? Eu não sei!

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