Eu iria escrever sobre outro assunto aqui neste blogue hoje. Mas ao saber dos motivos que levaram o grande ator Flávio Migliaccio a cometer suicídio, revelado na carta encontrada junto ao seu corpo, resolvi escrever sobre isso. Até porque gostava do ator - embora não considerasse seu fã - por ele ter estado no elenco de muitas obras que tive a oportunidade de assistir, incluindo o divertido Shazan, Sherife & CIA, que eu assitia na minha infância.
A carta encontrada foi curta, com poucas palavras. Mas são poucas palavras que dizem muito. Muitos livros grandes não conseguem ter o conteúdo que esta carta possui. Porque ao lê-la, vamos nos lembrando de muita coisa. De tudo aquilo que aconteceu nestes últimos 10 anos. Principalmente daquilo que é ruim, desagradável, danoso. Diz a carta:
"Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos, como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este. É com este tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje. FLÁVIO".
A humanidade não deu certo. Embora toda a carta, curta mas de conteúdo denso e tenso, seja comovente, esta frase marcou. A humanidade não deu certo. Daria para escrever uma série de livros só me baseando nesta frase, com base em fatos reais.
Há tempos que eu tenho me decepcionado com as pessoas. Sou caseiro e tenho poucos amigos não por loucura ou coisa parecida. Já chequei que não tenho os sintomas característicos do autismo. Sou solitário porque me decepcionei com a maioria das pessoas. Parece que sou um lúcido no meio de uma imensa multidão de milhões de autistas.
Espantalhos de carne e osso
As pessoas estão mais burras e mais insensíveis. Um bando de espantalhos de carne e osso, desprovidos de cérebro e de coração. A pressa em curtir uma vida fútil os faz se apressarem nas coisas mais tolas. Brasileiros tratando futebol como prioridade máxima. Autoridades já pensam em classificar o futebol como "atividade essencial" e organizar jogos sem plateia, para agradar aos afoitos. Os picadeiros tem que funcionarem para não deixar as crianças chorarem.
O Ptinder tem se mostrado um verdadeiro jardim de infância. Infelizmente as pessoas cismaram que somente a orientação política de esquerda já seria um sinal de inteligência. Grande engano. Curioso que diante do aumento da violência cometida de cônjuges contra cônjuges, as pessoas ainda tratam a conquista amorosa como brincadeira. A falta de maturidade faz mutos ignorarem que boa parte dos casos de violência doméstica começou de forma amigável e descontraída.
Os empresários estão cada vez mais gananciosos. Impacientes por não poder receber mais dinheiro para por em suas contas polpudas - claro que o rentismo os ajuda, mas isso tem um limite - querem obrigar pobres coitados a voltar a trabalhar em troca de quase nada de salário para enriquecer esses magnatas preguiçosos, sob risco de contaminação pela pandemia. Porque esses ricaços não tocam eles mesmos as empresas que possuem?
A humanidade não deu certo
Esses são apenas exemplos dos muitos casos em que a humanidade demonstra cada vez mais instintiva, descartando razão e afeto em troca de valores fúteis. A vida é curta e eles acham que temos mais é curtir, ter poder, bens, viajar sabe-se lá para onde e principalmente mostrar aos outros que "temos valor" sem ter valore de fato. Pois sem a capacidade de pensar e sentir, onde está o valor?
E não é apenas a extrema direita que dá o seu show de decadência humana. Até os que se assumem progressistas, de esquerda, decepcionam em inúmeros pontos. Para começar, boa parte de seus ideólogos mais influentes tem uma abastada vida de classe média alta que nos faz perguntar: os esquerdistas brasileiros estão me enganando?
O que nunca deve ser esquecido é que brasileiros são assim porque foram "educados" a serem assim. O nosso complexo de vira-lata nos impede de evoluir. Zombamos da intelectualidade e de tudo que nos faria evoluir. Achamos bonita a pieguice infantil e consideramos a fé - sinônimo de credulidade - como nossa maior qualidade. Fé? Maior qualidade? Continuamos a esperar o que "Jésus" prometeu.
Ainda cultuamos estereótipos antigos, hábitos antigos, costumes antigos. Cultuamos ídolos e mesmo após a decepção, arrumamos um jeito de mantê-los em seus pedestais através de teorias conspiratórias a favor deles. Queremos manter um mundo decadente, comprovadamente fracassado, acreditando que um dia este destino se converta sem mudar os motivos que levaram a este fracasso.
A humanidade não deu certo. Futurólogos e místicos erraram feio nas previsões. O século XXI, sempre anunciado como era de grandes transformações para melhor tem se revelado a era em que a humanidade surtou. Estamos jogando na incineradora tudo que aprendemos no século XX. Estamos, aos poucos, voltando a ser os bichos brutais dos tempos mais cavernosos.
Sairemos piores da quarentena
Resultado de anos e anos desprezando o intelecto, achando que se divertir, se alegrar e ter fé parecem mais importantes do que pensar, raciocinar, verificar, trabalhar. Tratamos assuntos importantes como coisas "chatas" e "de gente mal humorada" e que "não sabe viver". A grande maioria aprendeu a colocar santos, animais, convicções políticas e times de futebol acima de outras pessoas.
Lendo esta carta do grande ator Flávio Migliaccio, me ponho a pensar muito. Eu mesmo tenho me tornado uma pessoa mais apática, sem vontade de relações sociais e totalmente desconfiado e descrente da humanidade. Tenho certeza de que sairemos piores desta quarentena. Bens serão escassos e não teremos a liberdade que tínhamos antes.
O medo da doença nos assombrará e ditará as novas normas de convívio e deslocamento. A onda de ódio despertada nos últimos anos por causa do neo-conservadorismo - um bando de doidos que sonha com um século XXI retomando os valores da Idade Média - vai aumentar, reforçada pela escassez de bens e direitos e pela desconfiança alheia.
Não estou otimista. Na essência, é o fim do mundo chegando. Mas não como havia sido anunciado. A humanidade pode até não acabar, mas retomará seus mais primitivos instintos. Estaremos cada vez mais incapazes de resolver prolemas até mesmo simples.
É Migliaccio, a humanidade não deu certo. A prometida evolução humanitária foi adiada para pelo menos daqui a 200 anos. Pena que eu não estarei mais vivo para ver a humanidade se evoluir.

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