terça-feira, 5 de maio de 2020

Qual o interesse das pessoas em querer rotular Madonna e Michael Jackson de "roqueiros"?

Estranho. Ninguém mais rotula música pelo ouvido. Os rótulos agora servem muito mais para promover um nome, dar um status cultural a um intérprete, do que definir o som que ele faz. 

Este cacoete novo é ainda mais explícito com os superestimados Madonna e Michael Jackson, símbolos máximos do comercialismo musical, mas que a opinião pública trata como a pureza da arte musical.

Parece a teoria da terra plana: são frequentes as tentativas de rotular Madonna e Michael Jackson de roqueiros ou associá-los a valores superiores da cultura, como se eles fossem um misto de cultura alternativa, música erudita e contracultura. Como se eles fossem mudar o mundo com as cançõezinhas - boas, mas medianas, como qualquer nome do hit-parade - que gravaram.

A propaganda é boa, mas se ouvir o som e ver detalhes das posturas de ambos conclui-se que nunca passarem de mercenários oportunistas cercados de muitos assessores - e muitos patrões, pois ambos não mandavam em suas carreiras, fazendo exatamente o que os executivos de gravadoras e produtoras queriam.

Pompa como sinal de alta qualidade

Mas para quem acha que pompa é sinônimo de alta qualidade, tudo faz sentido. É o que faz com que um bom banho de loja seja capaz de transformar qualquer jeca em príncipe - como vemos na, por exemplo, glamorização do transporte curitibano e no culto excessivo ao futebol, maquiado graças aos imensos investimentos vindos de cartolas e patrocinadores. 

Madonna e Michael Jackson são frequentemente associados a valores superiores da cultura. Como se Madonna fizesse o que Laura Nyro realmente fez. Alás, a tendência é trocar as duas de posição. Responsável por um som mais difícil e revolucionário e atitude mais intelectualizada, Laura Nyro iria causar estrago no capitalismo musical. Melhor o pseudo-ativismo de Madonna, que escandaliza sem incomodar o sistema.

Como para muitos, pompa é sinal de alta qualidade, vamos tratar de associar rótulos elevados para Madonna e Michael Jackson, para que o terceiro mundo os trate como parâmetro musical. Para impedir que verdadeiros artistas, bem mais impactantes e de conteúdo mais intelectualizado influenciem as massas a se intelectualizar.

Como tanto a loira quanto Jackson nunca foram intelectuais da música, é melhor que eles representem um modelo ideal para a cultura, sobretudo nos países periféricos, onde ambos ainda são deuses da música - no país de origem, os EUA, eles já são hasbeen (ultrapassados) - e tratados como algo sublime.

Aliás, é até interessante transformá-los em intelectuais, usando as mesmas táticas de convencimento usadas na tese da terra plana. É tentar encontrar uma lógica, mesmo falsa, de provar que casca de ovo tem cabelo. Tentar provar, mesmo com teorias conspiratórias, de que Madonna e Michael Jackson são arte pura, intelectuais, anti-mercado e anti-sistêmicos.

Forjar uma atitude pseudo-rebelde com canções de consciencialismo estereotipado e participações de ambos em atividades filantrópicas e BINGO! Temos os maiores "intelectuais" da música. O mercado musical criou seus "intelectuais" para que os intelectuais não tenham voz.

Mas porque chamá-los de  "roqueiros"?

Além de associar ambos a valores superiores da música (Michael Jackson fazia world music, Madonna é a nova feminista, ambos são revolucionários, blá,blá,blá...) como se ambos representassem a pureza musical, ainda há que os ache representantes do rock, sem fazer rock de fato.

Mas porque associá-los ao rock? Certamente porque quem tomou esta decisão viu no rock uma espécie de "promoção". Como se rock fosse o melhor tipo de música do mundo, capaz de elevar a moral - e o moral - de quem é associado ao gênero. Como o carimbo de "roqueiro" o fizesse melhorar a sua capacidade e seu reconhecimento musical.

O que não deixa de ser estranho, pois eu não vejo superioridade no gênero rock. Para mim, há gêneros mais superiores, como o blues, o jazz e a música erudita. Mesmo no rock, as subdivisões que conseguem se evoluir colocam jazz e música erudita em seu caldeirão de influências.

Vamos analisar com os ouvidos: ouçam Madonna e Michael Jackson sem a paixonite desenfreada costumeira. Vamos perceber que a maioria das músicas segue o estilo de dance-music. Há pouco de rock no trabalho de ambos. Quase nada. João Bosco e Chico Buarque gravaram sambas em número muito maior que os rocks de Madonna e Jackson e não são rotulados de sambistas por causa disso.

De Madonna... só consigo me lembrar de Gambler, algo dela que chega mais perto de um rock. Michael só gravou três roquinhos e pasmem, Beat It não está entre eles! Porque, apesar do solo da guitarra, a batida da citada canção é de funk. Sim, funk. O funk antigo, mas funk. Se discorda, vamos chamar Fagner de roqueiro por causa do baita solo de guitarra de Robertinho do Recife (este sim, um roqueiro) na piegas Deslizes, nosso "exemplo-mor" de "rock pauleira".

Madonna e Michael Jackson: patronos do pop juvenil

Outra coisa a observar é o fato de que tanto Madonna quanto Michael Jackson são uma espécie de patronos do chamado pop atual juvenil. Há muita semelhança entre o que as estrelas teen como Justin Bieber, Demi Lovato, One Direction, BTS, Kira Kosarin e similares e a sonoridade e a postura de Madonna e Michael Jackson. Aliás, tanto Madonna como Jackson foram pioneiros no cacoete de colocar quinhentos dançarinos em cima do palco, algo nada a ver com um show de rock.

Se há um grande mérito em Madonna e Michael Jackson é o de mudar a maneira como a mídia trata a música. Ambos atualizaram a cultura de massa e a música de mercado. Fundaram o pop juvenil atual fazendo música para dançar, dando ênfase absoluta ao visual, disfarçando a pouca qualidade de suas canções, que são até boas, mas incapazes de gerar um impacto cultural de grande proporção.

Mas é preciso ser realista e entender que a função de ambos é apenas entreter. Quem conhece a verdadeira música intelectualizada percebe nítida diferença entre esta e as amenidades sacolejantes de Madonna e de Jackson. O que os dois fazem é pura música comercial, para vender e divertir, sem complexidades de melodia, arranjos e harmonias e sem letras que possam fazer as pessoas pensarem de forma intelectualizada, racional e sem paixões cegas.

Claro que ambos tem o seu lugar na música, mas na função coerente às suas capacidades de fazer as pessoas se divertirem. É para isso que Madonna e Michael Jackson existiram. Não tentem inventar qualidades para ambos, pois não é vocação deles mudar a cultura e nem intelectualizar as massas. 

Há muitos mais gente capaz de gerar cultura mais densa e de qualidade e que infelizmente não tem reconhecimento público, pois segue soterrado pelo estereótipo de "perfeição artística" estigmatizado por Madonna e Michael Jackson. 

Pelo menos para os brasileiros, Madonna e Michael Jackson ainda são os donos da cultura mundial. Até que um dia, em futuro bem remoto, brasileiros aprendam o que é realmente cultura.

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