domingo, 10 de maio de 2020

Resenha de álbum comemora 60 anos de líder do U2

ENCORPANDO A VITAMINA: Para comemorar a chegada a sexta década de vida do vocalista e letrista da banda U2, Paul "Bono Vox" Hewson, ressuscito este texto escrito por mim em 2014 sobre o meu álbum favorito da banda, The Unforgettable Fire, de 1984, e que também, por valor cultural, considero o melhor na carreira da mesma. É um álbum emocionante, tanto musicalmente, quanto nas letras bem reflexivas. 

Depois disso, nunca mais a banda conseguiu fazer um álbum à altura, preferindo se iludir no show business e acumular bens e prestígio, fazendo discos cada vez mais medíocres e sem empolgação, no clima de quem já disse o que tinha que dizer e não quer mais falar. Uma pena.

Este álbum, resenhado por mim abaixo, mostra uma banda em seu auge, com um disco perfeito para se ouvir sem pular. Até a aparentemente monótona 4th of July tem a sua beleza. É o último grande álbum da banda - há quem diga que Acthung Baby, de 1991 é o melhor da banda, mas apesar de gostar do álbum, não vejo o impacto de TUF, não passando de um álbum bem feito e muito agradável.

Em sua primeira edição, o álbum foi meu presente de aniversário de 15 anos e comprei mais uma edição em vinil e mais 3 edições em CD, a última, com bônus. Como não tenho mais CD (pelo menos em formato físico, tenho o mp3 do álbum todo, com bônus e tudo, guardado junto com o acervo de computador, em algum DVD de dados), ouço o álbum no Spotify. E não ouço em qualquer hora, pois entendo que é necessário um ritual para ouvi-lo com atenção, de tão belo que é o álbum. 

Com a decadência da banda, que tem feito álbuns fraquíssimos, ela deixou de ser uma de minhas bandas favoritas. Bono, hoje aos 60 anos, abandonou o lado ativista e virou mais um magnata entre tantos e suas declarações sobre política já não são levadas a sério. E nem acho que devem ser. 

Uma pena. Mesmo assim, eu desejo feliz aniversário a ele e agradeço pelo que ele fez de bom. Ouvindo TUF, recordo de muitos bons momentos de minha vida e relaxo meus ouvidos com o melhor que a banda irlandesa conseguiu fazer. Valeu, Bono Vox!

Os 30 anos de The Unforgettable Fire

Marcelo Pereira, Planeta Laranja, 01/10/2014

Há exatos 30 anos, era distribuído nas lojas de todo o mundo o álbum que na minha opinião é o melhor que o U2 já fez: The Unforgettable Fire. A banda também fez outros grandes álbuns, mas este é o seu ponto alto. Um disco homogêneo, coeso como uma suite, quase temático. Uma obra prima que não perde o seu valor, e nunca perderá, soando ainda quentinha do forno, mesmo com o passar dos anos. E oque faz este álbum ser tão especial?

Muitos críticos discordam do fato de ser o melhor álbum do U2. Há quem prefira o fraco Joshua Tree (1987) e o estrambólico e heterogêneo Achtung Baby (1991), excelente, mas com a banda perdendo sua personalidade. Mas analisando objetivamente (apesar de ser também o álbum que mais gosto do U2, estou procurando analisar T.U.F. pelo seu valor cultural, já que além de agradável é um álbum denso, belíssimo e bastante reflexivo.

Como diz o verbete do Wikipedia dedicado ao álbum (vale a pena dar uma olhada), as letras podem ser interpretadas de várias formas. Bad, por exemplo, foi composta sobre o vício em heroína, embora eu veja também como uma letra sobre o fim tenso de um relacionamento.

O álbum não poderia ter outra ordem de músicas. A sequência é perfeita no sentido de se entender a temática do álbum. Começa com a belíssima canção de "volta do exílio" A Sort of Homecoming (Oportunidade de voltar para o lar). Como abanda estava em vias de se mudar para os EUA, creio que a canção tenha sido composta em homenagem à terra-natal. Há um trecho cantado em neerlandês, idioma local folclórico da Irlanda.

Em seguida, vem Pride, que nos créditos do álbum aparece escrito sem seu subtítulo (In the name of Love), uma das duas canções em homenagem ao ativista anti-racismo Martin Luther King e que foi o carro-chefe-do álbum. É uma bela canção, de ritmo forte e que fez muito sucesso na época. Foi a música que fez a minha geração conhecer a famosa banda, embora eu já tenha ouvido New year's day no ano anterior, sem saber de que banda se tratava o U2, 

A forte Wire vem em seguida, rápida e direta, quase agressiva. É uma música-desabafo e a união do título desta com o nome do álbum inspirou o nome deste blogue. costumo ouvi-la em momentos de tensão, como catarse. Segundo Bono, foi influenciada pelo som do Talking Heads, banda de sonoridade new wave liderada pelo brasilianista David Byrne, amigão de Caetano Veloso.

E aí chega a faixa título, uma ode ao amor tenso. Apesar de "fire"significar incêndio, não consigo ouvir a música sem traduzir a expressão com o sentido de "paixão", já que a palavra é usada também com este significado. Foi o tema que dediquei oficialmente à minha maior paixão de adolescência, que nunca me correspondeu. Até hoje ouço pensando nela. Ela tem clipe oficial, belíssimo, mas pouco divulgado.

Em seguida, vem a tranquila Promenade, como se tivesse a missão de eliminar a tensão das duas músicas anteriores. Do contrário da anterior. é ideal apenas para paixões correspondidas, pela sua letra positiva e referências engraçadas a publicidade no final da letra.

No vinil, o disco era virado e vinha a soturna 4th of July, considerada monótona por muitos, mas bela e relaxante para quem gosta de músicas mais ambientes. Foi influenciada pelo trabalho de Brian Eno, integrante do Roxy Music (banda que era liderada por Bryan Ferry), que junto com Daniel Lanois (produtor de So, obra prima máxima de Peter Gabriel) e é totalmente instrumental. Para quem espera algo mais pulsante, esta deve ser a pior música da banda. eu discordo completamente, pois ela é belíssima. Ideal para ouvir deitado, com olhos fechados.

E vem Bad, a música mais popular do álbum após Pride. Apesar de falar sobre heroína, a letra, como eu havia falado, se encaixa bem quando se fala em relacionamentos que se encerram de forma brusca e tensa. A versão do álbum não fez sucesso (e foi considerada incompleta, por Bono, apos ser lançada). Ao ser lançado no ano seguinte, o single Wide Awake in America, foi incluída a versão definitiva da música, gravada ao vivo, que rendeu clipe e foi incluída como fundo musical de uma cena com a belíssima Natalie Portman em um filme que eu não consigo me lembrar qual é.

E vem mais tensão. Outra faixa rápida para momentos de adrenalina: Indian Summer Sky. Belíssima e direta como um soco, como se não quisesse enrolar ninguém, a bela canção foi bem executada em rádios alternativas e considero uma das melhores de todo o repertório da banda, assim como a faixa título do álbum que a inclui.

Se há uma canção em homenagem a terra-natal, há outra em homenagem ao exílio. Elvis Presley and America é uma ode aos EUA e sua cultura, numa espécie de pedido de exílio em forma de música, já que a crescente popularidade da banda a forçou a se mudar para o continente americano com o propósito de gerenciar melhor a sua carreira. A bela melodia quase romântica é outro momento relaxante e tenro do álbum.

E nisso se encerra com a belíssima MLK, em homenagem a Marin Luther King, com referências ao famoso discurso professado pelo saudoso ativista, morto cruelmente em um assassinato. Uma canção de duração pequena que nos faz pensar muito através de poucas palavras.

Para completar, a belíssima capa mostrando um belo castelo em foto antiga escolhida pelo fotógrafo holandês Anton Corbjin, famoso por clicar bandas alternativas na época e que fotografou a banda nas fotos para o mesmo álbum. Corbjin também tem experiência como diretor de clipes de música alternativa e lançou o seu primeiro longa metragem, Um Homem Misterioso, uma surpreendente trama contada de maneira criativa, tendo George Clooney (cujo casamento virou o assunto desta semana) como protagonista e produtor.

Em 2009 foi lançado uma edição em comemoração pelos 25 anos de lançamento, cheio de faixas raras, várias conhecidas por mim na época do lançamento do álbum.

O disco tem um grande valor de estima pessoal para mim, pois ganhei de meus pais o vinil dele no meu aniversário de 15 anos em 1986, 

Hoje o tenho em Cd simples, com uma das metades da edição comemorativa,por razões estéticas, mas com a a capa original da edição normal. O CD bônus foi todo gravado em mp3 e vendido junto com o CD da edição normal (selo prateado), junto com a capa da edição comemorativa.

Enfim um álbum perfeito, que mostra a banda irlandesa em sua melhor morma, e em momento de maior inspiração.

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