A importância de Michael Jackson para a música pop pode até ter sido grande. Mas não da maneira que quase todos pensam. Mediano como artista, Jackson na verdade foi o impulsionador do comercialismo na música, da música como produto e negócio. Foi o pioneiro de toda a pompa que vemos hoje no pop juvenil. Mas isso tudo nada tem a ver com a verdadeira música de qualidade, que passa longe disso e passa longe do público em geral, que quer ver pirotecnia, luzes, multidões de dançarinos no palco e muito mais pose do que canções caprichadas. E Jackson soube oferecer boa pirotecnia que salta aos olhos enquanto os ouvidos de seu público carecem de algo que supere a qualidade mediana de sua obra.
Mas como a visão é o sentido mais aguçado no ser humano, e Michael Jackson atuou como um excelente ilusionista, damos a obra mediana que ele produziu, sob a orientação de muita gente graúda, pois no fundo, Jackson não era criador de suas ideias, o caráter de brilhantismo e perfeição que não há na prática, somente no coração de cada admirador.
Temos medo de associá-lo ao pop adolescente de hoje, que adoramos odiar, apesar das semelhanças escancaradas. Conhece o primeiro álbum dos Backstreet Boys? Ouça-o, com muita atenção. Depois, sem uma grande pausa, pegue o Bad do Michael Jackson e ouça com a mesma atenção. A semelhança é enorme.
Mas temos medo. Preferimos igualar Jackson aos maiores roqueiros do mundo, mesmo que as diferenças de sonoridade e de atitude sejam altamente explícitas. Fazemos isso não porque realmente enxerguemos, na base do pensamento desejoso (Wishful Thinking) a ausente semelhança entre Jackson e os roqueiros, mas porque sonhamos em ver o garoto da cidade de Gary com o mesmo prestígio dos roqueiros.
Inventamos que ele era ativista (Michael, eles não cuidam da gente!). Inventamos que ele fazia pesquisa cultural. Inventamos que ele inventou tendências (inventou, mas justamente aquela tendência que tememos, a pompa na mediocridade da música juvenil). Inventamos que ele fazia arte pura, espontânea, revolucionária.
O que é mais engraçado é que a fama de "gênio máximo da pura arte" é tida só no Brasil e em alguns países subdesenvolvidos. Nos países com educação mais elevada, Michael Jackson nunca passou de mero hit-maker, mais um entre as inúmeras amenidades surgidas nos anos 80 (Jackson surgiu antes, mas foi nesta década que ele se consagrou), que poderia ter caído no esquecimento.
Brasileiros são os que acreditam mais no mito de Michael Jackson
Mas os brasileiros, confiantes numa mídia mentirosa que adora fabricar ídolos e heróis, caíram no conto da perfeição artística de Michael Jackson e a suposta genialidade do menino que soube obedecer ordens se arraigou na cultura brasileira. A ponto de seduzir até gente sensata como Leonardo Attuch (TV 247), Gilvan Moura (Beatles School) e Regis Tadeu (músico e crítico musical), todos crentes no falso mito da genialidade de Jackson.
E o que é mais interessante: os dramas da vida pessoal de Michael Jackson, um homossexual enrustido que era pedófilo e que cujas relações com mulheres foram todas forjadas. Inclusive com a filha de Elvis Presley, Lisa, para satisfazer a obsessão dos empresários de Jackson em transformá-lo no novo Elvis, algo que empolga os fãs brasileiros mais alucinados do intérprete de Thriller.
Pior que este fanatismo que coloca o símbolo máximo da transformação da música em reles mercadoria a ser produzida feito fruta na horta, é compartilhado com Steven Spielberg, o Michael Jackson do cinema, tão comercial quanto (sempre seguindo as orientações do mercado), mas tão bajulado como "gênio máximo" como o garoto de Gary, Indiana.
Apesar de ser tratado como "intelectual" da música, Jackson nada tinha de intelectual. Era um entertainer, uma espécie de bobo da corte moderno, a divertir as massas em tempos de ócio. Soube, com ajuda de gente grande por trás, entre produtores, diretores e divulgadores, a usar a grande mídia a seu favor e criar uma mitologia, que mesmo falsa é altamente convincente e poderosa.
Mas no fundo mesmo, quem prestar a atenção, Michael Jackson nunca passou de um nome mediano na música, que até tem seus bons momentos, mas longe do genial, e que na verdade influenciou o pop adolescente de hoje, que reprovamos, caracterizado por cantores masculinos de voz fina, excesso de dançarinos em shows pomposos e o uso do aparato visual para esconder a mediocridade sonora. É esse o legado de Michael Jackson. Achar que ele está acima disso, é recorrer às fake news.
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