terça-feira, 2 de junho de 2020

Não é Fascismo exigir a melhoria de nossa cultura

Somos esquerdistas, mas não aplaudimos erros, mesmo cometidos por pessoas de mesma classe e de mesma orientação política. Uma prova de que os esquerdistas erram foi o nocaute levado por eles que favoreceu a instauração de um golpe direitista a ponto de se tornar irreversível. Ainda não vi algum procedimento prático para tentar anular a instalação do governo de Jair Bolsonaro, claramente ilícito.

No entanto, um dos erros mais frequentes dos esquerdistas está numa área fora da política: na cultura. Esquerdistas, em sua grande maioria, são péssimos quando o assunto é cultura. Não raramente se mostram brilhantes quando falam em política, mas quando começam a falar de música, cinema e outras formas de arte soltam com frequência verdadeiras e imperdoáveis asneiras.

Uma dessas asneiras foi recentemente publicada em um site de esquerda. O link é este aqui. Nele, o responsável critica a mediocridade política, mas defende a mediocridade artística (sem defini-la como tal) acusando os que defendem uma cultura de qualidade, mais elaborada, inteligente e sensata de estarem sendo fascistas. Exigir uma cultura melhor virou coisa de fascista e o correto seria defender uma cultura que fosse tosca, precária e ridícula. 

O grande problema é a insistente confusão entre entretenimento e arte. Para muita gente, o entretenimento e arte se confundem a ponto de se fundirem em um só. Para eles, o entretenimento é a nova arte e deve ser vista como tal. Mas afinal, qual é a diferença entre uma e outra?

A diferença entre entretenimento e arte

O entretenimento é sinônimo de diversão. É algo que você faz sem qualquer tipo de compromisso apenas para passar o tempo e obter prazer. Geralmente é o que caracteriza os produtos da chamada "cultura" de massa, que é produzida pelo mercado do entretenimento. Não há problema algum em aceitar o entretenimento e deixá-lo se expor, desde que se mantenha em seu contexto próprio. O problema é que há muita gente querendo levar o entretenimento para além disso, sem alterar a sua essência.

A arte exige um compromisso maior. É uma forma de expressão que dá a oportunidade de um criador mostrar aquilo que sabe fazer de melhor, o que geralmente a maioria não sabe fazer. Cada artista (criador de arte - não o sinônimo de "celebridade" que se consagrou por muito tempo) tem a sua obra com características próprias, mostrando inteligência, sensatez e sensibilidade, com arranjos caprichados, estórias bem contadas, linguagem criativa e danças e movimentos que extraem o melhor que o corpo pode fazer. 

A arte, em sua essência, nunca deve ser ridícula, exceto quando se assume como comédia, pois nela - e somente nela - o caráter de ridiculosidade não gerar danos a arte. Mas não dá para ser sério e ridículo ao mesmo tempo como querem um punhado considerável de esquerdistas ingênuos que se esquecem que a "cultura" que defendem é o mesmo entretenimento capitalista jogado na atmosfera por grandes corporações de entretenimento.

Para esquerdistas, mediocridade na política é inaceitável, na cultura é valorizada

É notável o nível de mediocridade - e curioso que o texto critica a mediocridade na política - da chamada "cultura" produzida hoje em dia. A coisa anda tão baixa que quando alguém faz algo que supera um pouco a mediocridade, mas ainda muito aquém da genialidade, é considerado brilhante. Hoje a qualidade cultural é medida não por ser melhor, mas pela não-ruindade. 

A esquerda brasileira encanou que a cultura brasileira deve ser inferior, feita por gente sem talento ou vocação que precisa virar "artista" para fugir do sub-emprego destinado ao povo pobre, assinando com empresas de entretenimento tão gananciosas quanto qualquer corporação, para depois fingir fazer "cultura de verdade" enganando milhares de esquerdistas pensando estar enxergando uma pseudo-revolução cultural fiel às regras do mercado.

Isso é um verdadeiro complexo de vira-lata. Porque a cultura, para ser mais "natural" tem que ser ruim? Não sabem os esquerdistas que estes "artistas" de proveta são treinados pelas empresas de entretenimento? O que Wesley Safadão canta sai da mente dele? O que Anitta canta sai da mente dela? Óbvio que não! Antes de serem "artistas", eles são funcionários de empresas de entretenimento e o que eles fazem devem atender as exigências do mercado senão ra-re-ri-ro-RUA!

Não haveria nada demais se existisse o entretenimento de um lado e a arte do outro. Entretenimento para quem quer se divertir e arte para quem quer ir além de uma mera diversão. Deve existir espaço para todos. Mas os defensores da decadência cultural, embora finjam querer espaço para todos, desejam apenas para o que eles definem como "cultura", o entretenimento puro com suas músicas toscas de letras inócuas e dancinhas ridículas. 

Foco na origem social do cantor, dispensando a competência artística  

Para os esquerdistas, cobrar qualidade musical é sinal de "elitismo", como se a reclamação de quem quer uma cultura melhor não se referisse às características da obra produzida e sim do nível social de quem divulga. Como se o fato de um cantor ser pobre fosse mais relevante que a capacidade que ele tem de criar ou não boas obras. 

É querer colocar a classe social do intérprete como diferencial para a qualidade musical, quando a lógica comprova que qualidade musical nada tem a ver com classe social e sim com a capacidade artística, com a maneira que o criador da obra enxerga o seu mundo ao redor e como ele se manifesta através de suas obras.

É preciso parar de ter peninha de um pobre que não sabe criar uma boa obra. Sucesso não é sinônimo de qualidade musical. O fato de muita gente gostar não é garantia de que algo seja bom. Em sociedades onde a ignorância predomina, a tendência é de que o pior seja mais facilmente aceito.

Outra coisa: se um cara não consegue criar algo bom, paciência: ele que vá fazer outra atividade para ganhar dinheiro! Todos nós temos vocação para alguma coisa, mas ninguém tem vocação para tudo. Deixem a arte para os verdadeiros artistas. Para os "quitandeiros" culturais, é melhor vender repolho na feira. Mesmo que seja uma feira situada em um bairro nobre.

A cultura deve ser encarada com maior responsabilidade. Cultura é a parte prática da educação. Povo mal educado só produz cultura ruim. Exaltar a precarização cultural como nova forma de "cultura" é esnobar o desenvolvimento intelectual do povo e desejar que tudo fique como está. A elite sempre gostou de ver os pobres na ignorância fazendo o papel de ridículos. E não será dando rótulos nobres a fajuta "cultura das periferias" que irá mudar isso.

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