Seres humanos, por instinto, gostam de aglomeração. Os brasileiros mais ainda. A ponto de moldar seus gostos, convicções e costumes às aglomerações. Por isso que os brasileiros preferem revogar a sua vocação à diversidade e seguir a manada no modo de pensar e agir.
Mas aí veio um monstrinho bem pequeninho, invisível até para as bactérias, causando estrago para todos os lados. Criou uma doença nova, de nome estranho, Covid 19, e obrigou todo mundo a se isolar em suas casas, senão correria alto risco de morrer asfixiado.
Pensem bem: isolar pessoas acostumadas com vida social constante é um horror. Para gente que tinha como rotina estar no meio de multidões de no mínimo 100 pessoas, ter que ficar com poucas pessoas, sozinho, no mesmo espaço físico todos os dias, é uma tortura.
Certamente, obrigar uma pessoa a fazer algo que ela não está acostumada, aos poucos a leva a loucura. Sinto que as pessoas estão aos poucos enlouquecendo. Em alguns casos não é aquele loucura estereotipada. Mas é loucura. É um sinal claro de que cérebro não está funcionando bem.
O tipo de loucura varia de pessoa para pessoa. Mas é loucura. Nota-se que a pessoa não está bem. No Instagram, já começam a aparecer postagens estranhas, que seriam normais se viessem de crianças de cinco anos de idade. Mas vem de gente de 20, 30, 40 e até 50 anos de idade. Aliás nem sessentões e setentões estão de fora desta fase de loucura. Todos nos enlouquecemos!
No começo da quarentena, acreditávamos que destas crisálidas sairiam borboletas lindas e formosas. Mas pelo jeito não sairão borboletas desses casulos. Poderemos tornar famintos gafanhotos, enxeridos marimbondos ou até mesmo asquerosas e venenosas aranhas (com a diferença que seus muitos olhos estão todos cegos).
Deixando metáforas de lado, estaremos certamente mais enlouquecidos. Mais infantis, mais burros, mais insensíveis, etc.. Não pensem que o #vidasnegrasimportam está tornando as pessoas mais altruístas - pode ser um modismo: em tempos de crise, todos gostam de ajudar, para parecerem bondosos e angariar admiração e confiança alheias.
Há tempos que a racionalidade tem estado fora de moda. As religiões recuperaram a sua força e influência com a quarentena. Sem amigos reais, as pessoas apelam para amiguinhos imaginários. Até mortos conhecidos viraram santos a resolver problemas que a humanidade se recusa a resolver, por ignorância, incapacidade ou até por preguiça. Ou por medo de destruir ilusões.
Aliás estamos cada vez mais iludidos. Defender as ilusões se tornou tão importante quanto defender a própria honra. Viver iludido se tornou um direito. Até mesmo a Constituição Federal brasileira defende o direito de viver iludido. Então tá. Se a realidade é ruim, fujamos dela. Fácil, não?
A loucura já começa a se manifestar através das pessoas que, mesmo com dados escancarados na mídia que ela confia (sim, a mídia corporativa, a velha distribuidora de notícias), ignora uma doença mortal, causada por um germe desconhecido e capaz de se alterar misteriosamente e com rapidez, se tornando ainda mais mortal e mais difícil de combater.
Sim, somos doidos. Queremos nossa rotina de aglomeração de volta! Queremos bares lotados, igrejas lotadas, estádios de futebol lotados! Queremos ser gado, ser manada! Não deixemos apenas os bolsonaristas ter o privilégio de ser gado. A esquerda quer ser gado também! Todos os brasileiros querem ser gado! Queremos seguir maiorias, imitar maiorias, pensar e agir como maiorias!
Sozinhos, fica realmente difícil ser gado. Mesmo desfilando uma repetição de tendências nas redes sociais, com muitas pessoas postando as mesmas coisas para poder se sentir incluída na humanidade.
Se prender a ilusões e sonhar um dia em voltar a se tornar gado está fazendo muita gente enlouquecer. Não sabemos o que acontecerá após voltarmos à normalidade. Mas quê normalidade? Ser doido é o novo normal? Certamente...

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