Ontem, bares no Rio de Janeiro foram reabertos. Estavam lotados! Um bando de impacientes agoniados por ter que focar meses trancados em casa, sem um multidão ao redor, resolveu sair na marra, inventando que a covid seria uma mentira inventada pela mídia "comunista" (no RJ, o anti-petismo continua forte, por questões elitistas).
Esta atitude reflete algo que está tradicionalmente presente na personalidade dos brasileiros (seja de direita e seja também de esquerda): o fascínio por aglomerações. Mesmo que seres humanos sejam de fato sociais, os brasileiros levam isso ao extremo a ponto de não gostarem de se divertir sozinhos e de moldar os seus gostos, opiniões e costumes à maioria, criando um falso consenso que favorece aglomerações.
Tudo no Brasil gira em torno da vida social. Por ser um país injusto, com uma elite ferozmente gananciosa e que exige tudo de todos, ter um "pistolão" sempre ajuda. E de onde virá este "pistolão"? Certamente de contatos sociais. Praticamente todos os brasileiros se beneficiam com a vida social, pois do contrário que diz o falso mito da Meritocracia, ninguém vence sozinho.
E para vencer junto, é preciso formar amizades. Muitas amizades. Verdadeiras multidões de possíveis benfeitores. O que é maravilhoso, pois a diversão coletiva parece ser muito mais divertida que a diversão solitária e tranquila. Nada como uma boa barulheira agitada para deixar muitos felizes! É a melhor maneira de vencer na vida.
Por este motivo, todos moldam seus gostos e convicções de acordo com a maioria. Por isso que beber uma bebida amarga (cerveja) é tão bom. Por isso que acreditar que um tirano invisível (Deus) governa o universo é normal. Por isso que gostar de um esporte chato como o futebol é maravilhoso. Por isso que casar com aquela mulher chata é tão romântico. Todos atraem a aprovação de multidões!
Tudo no Brasil é feito para agradar a opinião alheia. E se envolver em aglomerações tem muito a ver com isso. Esta opinião alheia que irá nos dar prestígio, conselho e até auxílio para que possamos vencer na vida, conseguindo emprego e vida afetiva, coisas que dependem da opinião alheia para adquirimos. Mesmo empregos antônomos dependem de freguesia para que tenhamos renda.
Os brasileiros sabem muito bem como é complicado viver sozinho e por isso amam viver em multidões. Ter turmas de no mínimo 15 amigos é essencial e mesmo para casais é mais divertido estar com amigos berrando e pulando do que tranquilamente em uma bela paisagem a sós, somente o casal.

Isso tudo para explicar porque todos saíram ontem para a farra sagrada de cada dia, lotando bares sem se importar com o contágio de uma doença fatal. Todo mundo foge é da solidão. A solidão amedronta mais que a morte, como disse uma pesquisa antiga, e por isso que ninguém está com medo de se arriscar a retomar a rotina de aglomerações.
Mesmo os esquerdistas, que demonstram mais cautela com a covid, sonham com a volta das aglomerações. Enquanto isso não é possível, agem feito um gado de esquerda apoiando qualquer iniciativa que seja coletiva, repetindo memes e tendências que seja ao gosto de grandes maiorias, pois ter gosto e opiniões próprios é muito ruim para a sociabilização.
Para os brasileiros, legam mesmo é viver acompanhado, de preferência com um número cada vez maior de pessoas. Por isso que os brasileiros recusam a sua vocação à diversidade. Pensar igual aos outros garante prestígio. Modismos pegam fácil aqui por este motivo. Tradições se solidificam.
Aglomerar é a lei. Fazer tudo igual como um gado humano é essencial. Todo mundo junto e misturado, num só pensamento! Se a morte chegar. Não faz mal. Todo mundo morre junto e fica junto até a eternidade.


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