Campanhas sociais que envolvem causas identitárias atraem muito mais simpatia das pessoas. São campanhas que não parecem chatas e ainda servem para pessoas normalmente gananciosas posarem de bondosas de vez em quando e angariarem a confiança alheia necessária para se beneficiar.
Já as causas trabalhistas parecem coisa de gente mal humorada, "de mal com a vida" que não sabe se virar e que ainda quer meter o dedo nos "direitos" (leia-se privilégios) dos outros. Embora vivamos num mundo capitalista onde uma vida digna é considerada cara, as causas trabalhistas quase sempre são jogadas para segundo (senão para o último) plano.
No fundo, não interessa para quem esta financeiramente bem, em lutar por causas trabalhistas. Elas representam um direito considerado alheio para os que estão bem. Além disso, existe o mito da meritocracia, que é forte na sociedade (embora seu nome não seja usado) que defende a tese de que a sobrevivência depende apenas dos esforço de cada um, de preferência sem ajuda.
Estes dois motivos, o bem estar de pessoas influentes e o mito da meritocracia, fazem com que não haja campanhas intensas que envolvam causas trabalhistas. Você não vai ver ônibus pintado com cores em prol de emprego e melhores salários. Você não verá celebridades pedindo a revogação da sádica reforma trabalhista e nem da melhoria da redistribuição de renda.
A meritocracia é uma tese vagabunda que tenta enxergar justiça na má distribuição de renda. A sobrevivência é uma competição, ricos são vencedores e pobres perdedores. Se os pobres querem justiça econômica, terão que batalhar neste jogo perverso cujas regras são feitas pelos ricos. Afinal, os vencedores, além de levarem os prêmios, ganham o privilégio de fazer as regras.
Isso explica porque não vemos nem veremos celebridades fazendo campanha por causas trabalhistas. Há celebridades que se acham humanistas se envolvendo em causas identitárias, como defesa de certos grupos sociais (negros, gays, etc.), da natureza (incluindo o hipócrita veganismo) e do consumo de drogas ilícitas para recreação, se esquecendo que todas estas causas necessitam de muito dinheiro para serem alcançadas. Algo impossível para quem ganha um salário mínimo.
Normalmente as causas trabalhistas só são manifestadas pelos próprios prejudicados, já que vivemos no mundo em que a meritocracia é lei e o ônus de exigir justiça é limitado às vítimas deste sistema. Quem é de classe média para cima não está nem aí para causas trabalhistas. "Pra quê defender justiça econômica se para mim, o dinheiro entra na conta todo o mês?", dirá algum felizardo.
Pior que a classe média brasileira entra no embarque do trem ganancioso de recusar causas trabalhistas. A própria esquerda brasileira, embora mencione causas trabalhistas em uma declaração ali e outra acolá, não mexe um só dedo para tentar mudar alguma coisas. A reforma trabalhista não atingem os esquerdistas, em boa parte bem de vida. Tal e qual as celebridades.
O egoísmo é instintivo, do contrário que Paulo Guedes disse. O altruísmo exige esforço e abnegação e não raramente para ser verdadeiramente bondoso deve-se diminuir seu padrão de vida, se livrar de uma boa parte de supérfluos, abrir mão da pompa. Isso ninguém quer. Nem mesmo os esquerdistas. Viver com dois salários mínimos? Nem pensar!
Por isso as coisas estão como estão e nada vai mudar. A maioria das pessoas é egoísta, gananciosa e fará de tudo para se manter em alto patamar. Ninguém vai abandonar a sua vida de felicidade aparente para ajudar os que estão mal. Quem chegou lá agarra seu troféu com ferocidade e ninguém o tira do topo para que a verdadeira e desprezada justiça social seja feita.
Aos que sofrem, sem ter a quem recorrer, resta a ilusão da religiosidade e do fictício Deus, tirano divino, para obter a ajuda que nunca chega. A não ser na forma de efêmeras cestinhas básicas que servem mais para promover falsos benfeitores do que para trazer o bem estar aos mais carentes.

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