sábado, 11 de julho de 2020

"Funk" é o tipo de música que as elites querem que os pobres ouçam

Quem se considera progressista, infelizmente enxerga a cultura do ponto de vista de quem está em cima do palco: só consegue ver a plateia. As esquerdas brasileiras e alguns direitistas um pouco mais moderninhos (que apoiam causas identitárias) consideram qua a qualidade da cultura não está nas obras e sim no tipo de público. A qualidade da obra é tratada como algo subjetivo, embora não seja.

Isso faz com que os progressistas em geral tratem o irritante "funk" brasileiro como algo superior, moderno e bem feito, que merece o mesmo respeito das melhores obras de arte, embora nada haja de intelectual, cultural e artístico neste tipo de som que nem mesmo parece música, soando como um barulho incômodo. 

Reforçado pela decadência do pop estadunidense atual - que mais parece barulhinho de video-game - que é a sua fonte de inspiração, o "funk" brasileiro (que nada tem a ver com o funk original, roubando o rótulo pelo fato de que nasceu nos mesmos tipos de baile onde rolavam o funk original) que já nasceu ruim está cada vez pior e ainda mais irritante.

Mas como brasileiros só enxergam aparência e se mostram cegos para a essência, além de associarem a falsa modernidade (só porque surgiu há poucos anos e está na moda), associam a falsa rebeldia, pois confundem irritar os outros com protesto contra o sistema. Mas nada é mais sistemático que o "funk" brasileiro, que têm as sagradas bênção da grande mídia, sobretudo da Rede Globo.

Ignoram os defensores do "funk" brasileiro que o ritmo nada tem de cultural e não nasceu na periferia. Nasceu nos escritórios de gravadoras e produtoras de eventos e se aproveitou da má qualidade da educação que é oferecida pela periferia, onde o povo possui apenas meios tradicionais como a televisão como fonte de informação e de entretenimento.

Mesmo com celulares relativamente baratos e acesso a internet através de gratuitas - mas traiçoeiras - redes sociais, o povo pobre os usa mais para difundir o que aprende via mídia tradicional e outros meios (como igrejas evangélicas) do que para procurar novidades que desconhecem. Mesmo as novas tendências surgidas no Brasil recente nada diferem em essência do que existia na mídia décadas atrás.

O "funk" foi empurrado para o povo pobre para mantê-lo imobilizado quanto às questões sociais, sobretudo trabalhistas. Em troca, a periferia viu o samba e outros ritmos populares serem sequestrados pelas elites, dando um tratamento a gente como Cartola, Paulinho da Viola, Jackson do Pandeiro e Luís Gonzaga, como se fossem compositores de música erudita, tocando para magnatas.

 É uma armação muito bem feita a ponto de transformar o "funk" no primeiro gênero musical a usar o vitimismo como estratégia publicitária, com vários intérpretes e defensores chorando pelos cantos reclamando da rejeição de supostos elitistas que não conseguem sentir a "beleza" (sic) do "funk, usando sempre a ladainha de que "é a música que os pobres sabem fazer".

"Funk" é armadilha contra o povo pobre

Vejo muito de comercialismo no "funk" brasileiro. Além da precariedade de sua qualidade musical, o gênero tem servido de fato para tirar muitos pobres da miséria, usando o gênero musical para tirar alguns trocados. Nem que seja por alguns meses, pois os nomes do "funk" costumam ser efêmeros e desaparecer após algumas poucas temporadas em evidência na mídia.

Ou seja, nada da alegada espontaneidade do povo pobre. O "funk" não é um meio de comunicação. É um meio de gerar renda. E por dinheiro se faz tudo, até o que se detesta. Até o que não se identifica. Por ser um meio de gerar renda, não há nenhum compromisso do "funk" com a arte e com a cultura. 

É por isso que o "funk" brasileiro é tão ruim. Além de instrumento infelizmente bem sucedido de glamorização da pobreza, um meio do pobre aceitar a sua condição humilhante para que as classes economicamente superiores não tenham que reduzir seu ganancioso padrão de vida. Além disso, o "funk" humilha o povo pobre, ridicularizando-o e tornando objeto de chacota de direitistas.

O "funk" brasileiro é uma armadilha em que os pobres caíram e caem direitinho. Não é o seu tipo de música legítimo. Até porque a verdadeira cultura do povo pobre foi sequestrada pelas elites. Que já roubam tudo dos mais carentes, desde a honra até o mínimo de alimentação a estar sobre a mesa.

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