Brasileiros são conservadores por natureza. Tem medo de mudanças porque enxergam nelas a perda de privilégios. Brasileiros são seres sociais e ter um pouco mais que a maioria atrai admiração alheia. Além disso, a própria vida social exige a manutenção de certos costumes, ideias e valores que, segundo seus defensores, não devem ser descartados. Até porque têm interesses envolvidos.
As esquerdas brasileiras, mais brasileiras que esquerdistas, entenderam que certos valores não se mudam e trataram logo de defender um Brasil que continuasse o mesmo de 100 anos atrás, mas agregando para si um número maior de beneficiados. Essa é a única meta dos esquerdistas brasileiros, cujas lideranças pertencem à sempre conservadora classe média alta.
Só que as esquerdas não querem se assumir como conservadoras. Conservador parece que virou sinônimo de fascista. O que as esquerdas querem é o terraplanismo de mudar o Brasil sem mudar praticamente nada. Velhos costumes, velhas ideias e velhos valores. Mas com pobres, gays, negros, mulheres, indígenas e os oprimidos em geral incluídos neles.
Mesmo que as esquerdas queiram ousar na Política, na Economia e em alguns aspectos do Direito, é evidente que quando o assunto é cultura, lazer e o modo como as pessoas se relacionam, o conservadorismo se apresenta como solução. Mudar para quê, se fora dos assuntos mais sérios, somos todos felizes? Pelo menos, é o que as esquerdas consideram como "felicidade".
Um exemplo de como as esquerdas tem medo de mudar é o PTinder. Para os esquerdistas é muito mais fácil criar MAIS UM aplicativo de paquera, igualzinho aos outros, do que usar a já influente mídia alternativa para mudar o modo como paqueramos para que a vida afetiva se torna mais democrática, atingindo solitários de todos os perfis.
Mas preferiram manter os velhos costumes - apenas agregando mais gente, os oprimidos - que graças ao espiral do silêncio e ao espírito de manada, logo se adaptam aos velhos costumes, ideias e valores, dificultando ou até impossibilitando o desencalhe de quem pensa diferente, de quem gosta de coisas diferentes do que pensa a maioria.
Terraplanismo de esquerda
E foi só um exemplo. Situações em que envolve descontração (incluindo as sempre controversas drogas, como a ainda ilegal a maconha e as legalizadas bebidas alcoólicas) e moral positiva (como religião, família, etc.), até por serem consideradas como algo bom, prazeroso, ligado a valores que consideramos importantes, nunca são mudados, mesmo que não gerem benefícios reais.
Mas o terraplanismo de uma sociedade como a brasileira, pouco afeita a lógica e a racionalidade, mas que ama posar de inteligente e sábia, permite a hipocrisia de assumirmos um rótulo que equivale o oposto do que colocamos em prática. "Queremos conservar tudo que consideramos bom, mas não nos chame de conservadores. Faremos uma revolução vazia, mudando rótulos para que nada mude."
Por isso, nunca espere grandes mudanças, mesmo com as esquerdas no comando. Elas estão nos enganando: não querem mudar nada. Só querem agregar mais gente para usufruir das lindas ilusões do maravilhoso mundo capitalista em que vivemos. Não há socialismo e sim capitalismo inclusivo. Tudo como era antes no quartel de Abrantes.
Estamos encurralados, entre uma direita odiosa e gananciosa e uma esquerda deslumbrada e enrustidamente conservadora. Afinal, somos brasileiros, um povo com medo de mudanças e que só quer agarrar seu ursinho de pelúcia mofado, com claro medo de perdê-lo.

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