Parece que toda a humanidade, do nada, virou altruísta da noite para o dia. Um festival de campanhas filantrópicas como o Vidas Negras Importam, o Juntos e o Somos 70%, entre outras campanhas que surgem, não para melhorar a humanidade, mas para seus participantes se promoverem como pessoas bondosas e atraíssem a confiança alheia para que seus interesses particulares sejam preservados.
Todos sabem que uma pessoa bondosa atrai a atenção e a confiança de outras pessoas. Ninguém quer posar de vilão, por mais ganancioso que seja. Até uma ideologia foi criada para que a ganância não pareça malvada: a Meritocracia. "Eu sou rico porque lutei. Se você lutar, também enriquecerá", é o lema deste mito que legitima a ganância. Afinal, "os ricos são os pobres que deram certo, não é"?
A meritocracia é algo tão maravilhoso que até mesmo a esquerda apoia, embora finja que não. Só dá algumas características a menos que a meritocracia da direita. Ninguém aqui está a fim de reduzir seu pomposo padrão de vida cheio de supérfluos para que pobres possam ter o necessário. Mas através do discurso e da conversa fiada podemos sim posar de bons sem praticar a bondade.
Observem o apoio de esquerdistas "às religiões, aí temos o "ser humano perfeito". Ninguém aqui provou se Deus existe ou não, achando normal um universo inteiro sob o comando de uma só pessoa, com poderes extraordinários.Todas as religiões se contradizem, mas são rodas válidas e verdadeiras. A fé tem a possibilidade de legitimar absurdos e contradições. Além de canonizar qualquer pessoa.
Entrar nestas campanhas é muito bom para posar de bondoso.Tanto os "homens de bem" da direita que agridem os outros em nome da "bondade" quanto os esquerdistas que dizem que a favela é linda vivendo dentro de mansões muito bem abastecidas, desejam ser vistos como bondosos sem praticar a verdadeira bondade, mantendo todo o sistema como está, com todos os seus valores intactos.
Está na cara de que ninguém quer de fato mudanças. Mudar significa risco de se perder o que conquistou. Principalmente os supérfluos que fazem as pessoas se acharem melhores que as outras, nas horas de exibição (não dá para posar o tempo todo de bondoso e ter mais que os outros faz bem para o ego). Por isso é bom criar campanhas que não mudem muito, mas façam tudo parecer positivo.
É muito fácil para quem está feliz e bem sucedido ter esperança e acreditar nestas campanhas que têm muito discurso e quase nenhuma ação. Difícil é você largar sua vidinha confortável para ajudar quem não tem nem 10% da qualidade de vida que você possui.
Ninguém luta por melhorias salariais, achando que muita gente consegue viver com apenas 1000 reais por mês. Mas se a própria pessoa, bem de vida com seu salário de 5 ou 6 dígitos, pudesse se imaginar na situação de inúmeras pessoas que estão longe de ver nas mãos a quantidade de renda necessária para uma vida realmente digna? Desistiria da vida boa para ganhar apenas 1000 reais?
É muito fácil posar de bondoso sem reduzir o padrão de vida. Todos casados com pessoas bonitas e inteligentes, com filhos, carros do ano, cachorrões, tudo bem guardado em pequenas mansões em bairros nobres de centros urbanos. É um tipo de ativismo hipócrita, já que o suposto benfeitor não se encontra na situação desgraçada de quem tem o pescoço esmagado por um joelho branco.
Não, meus queridos filantropos de ocasião. Não quero que vocês se empobreçam para agradar os pobres. Basta priorizar as causas trabalhistas, lutar por salários mais justos. O DIEESE já calculou em torno de 4000 reais, o salário mínimo que garante uma vida digna.
Mas ao invés disso ficam defendendo vício de drogas, pobres empinando os rabos, homens vestidos de mulher, esposas torrando cartões de créditos dos maridos e torcedores de futebol batendo em policiais, como se bastasse isso para o mundo melhorar.
As desigualdades vão continuar. E não são pomposas campanhas de altruísmo teórico que vão acabar com elas. Pelo menos os vilões da sociedade continuarão posando de bons, sem fazer absolutamente nada, através das campanhas fajutas que s´po servem para aumentar ainda mais a nossa auto-estima, colocando-nos gratuitamente na galeria de honra dos homens bons.
Ora, vamos assumir. Somos todos hipócritas. Somos todos Derek Chauvin. Somos todos Bolsonaro. Até que saiamos de nosso conforto para fazer alguma coisa.

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