sábado, 29 de agosto de 2020

Defendendo o direito de ser irresponsável

A sociedade brasileira é uma sociedade sem valores. Despidos de bom senso e sequiosos para satisfazerem seus instintos mais primitivos, os brasileiros, numa verdadeira inversão de valores, passaram a aprovar equívocos, valorizar atrocidades e defender o "direito" de ser irresponsável.

É muito complexo analisar isso, mas o ponto de partida é que adultos, sobretudo os mais influentes, se acham no direito de fazer o que quiserem, por mais danoso que pareça ser. Quem tenta levá-los para o bom senso é automaticamente rotulado de moralista. Como se reprovar erros fosse ato de moralismo.

Para quem não sabe, moralismo é igualmente errado. De fato, é coisa de gente retrógrada. Tanto o moralismo que limita quanto a libertinagem, que é uma espécie de liberdade irresponsável, são nocivos.

O moralismo nos impede de tomarmos a decisão correta. A libertinagem nos estimula a tomarmos a decisão errada. E ambos jogam no lixo o bom senso, a lógica, a capacidade de resolver problemas e o respeito à essência humana. Todos os dias vemos coisas que mostram que nossa sociedade chegou ao que podemos chamar de Cúmulo da Babaquice.

Na verdade, tanto a libertinagem quanto o moralismo existem para impedir avanços, principalmente intelectuais. Os brasileiros são um povo que aprendeu a absurda tese que burrice liberta. Ser imbecil, idiota, irresponsável e ter o cérebro sem controle virou "direito" básico para os brasileiros.

Estranhamente, o nosso povo se empenha muito em lutar pelo direito de ser incoerente enquanto nunca luta de fato por direitos mais essenciais como o salário que ganham. Encher a cara, cheirar loló, berrar por futebol, acreditar em tolices religiosas, ser enganado por líderes e celebridades, se tornaram coisas bastante valorizadas em nossa sociedade cada vez mais desvalorizada. 

Para a maioria, ser errado é "não ser hipócrita"

Um exemplo da decadência humana das últimas décadas. Venho notado que as celebridades que cometem mais erros normalmente são as menos criticadas. Celebridades vulgares ou de comportamento irresponsável são protegidas de qualquer crítica.

Os que seguem uma vida pacata, sem escândalos são duramente criticados, humilhados e chamados de hipócritas. Algumas das celebridades pacatas tem que forjar defeitos para fugir das críticas. Mas porque isso acontece? Porque agora ter defeitos virou coisa admirável?

Sabemos que os seres humanos não são perfeitos. Todos erram. Mas isso não significa que errar seja o ideal. Erramos porque não aprendemos a viver. Mas como muitos erram e temos o péssimo hábito de imitar a maioria, continuamos errando e os erros, ao se consagrarem, se convertem em "acertos".

Celebridades são tidas como "sobre-humanas". E sobre-humanos passa a ideia de perfeição (coisa difícil em um planeta atrasado como a Terra e impossível em um país bem mais atrasado como o Brasil). Quebrar esse mito é uma tentativa - equivocada - de "humanizar" as celebridades.

Era da mediocridade explica valorização dos defeitos

Desde os anos 90, quando surgiu a era da mediocridade que nós vivemos até hoje, tudo passou a ser nivelado por baixo. Como se tornar uma pessoa melhor exige muito esforço, principalmente intelectual e também nos exige de largar alguns valores que acreditamos ser positivo (fé, diversão, etc.), quase toda a sociedade brasileira se recusou a se evoluir.

Essa "nova" sociedade preferiu limitar a evolução à tecnologia, como se apertar uns botõezinhos fizesse uma pessoa ser melhor que as outras. Também como se fosse prerrogativa das maquinas e seus programas se evoluir, dispensando a humanidade de fazer o mesmo.

Tudo em nossa sociedade decaiu. Tudo mesmo. Não consigo ver um setor em que não tenha sofrido algum tipo de dano pela imbecilização social e pela submissão cega a líderes e celebridades. Está tudo errado: relações humanas, serviços, produtos: tudo se encontra em franca piora. Estamos indo rumo ao caos.

E numa sociedade já caótica, tudo é nivelado por baixo. Os defeitos são agora o referencial. Ninguém quer mais melhorar a sua personalidade. Para muitos, só o fato de completar 18 anos já é um sinal de perfeição de caráter, dispensando totalmente a correção de quaisquer defeitos.

Ser "perfeito" seria não cometer certos erros e até cometer outros. Há agora uma "nova" noção de "perfeição" onde ser irresponsável virou sinônimo de gente "que sabe o que quer". Muita gente acaba por legitimar como acerto uma comportamento que muitos se esquecem ser altamente danoso, sobretudo para o intelecto.

Muitas das atitudes altamente danosas são cometidas com a "cara cheia". Será que ninguém sabe que álcool danifica células cerebrais e na melhor das hipóteses, faz o cérebro perder algumas capacidades de discernimento e o seu controle? É perceptível que pessoas que consomem álcool com regularidade possuem o discernimento, senão ausente, bastante limitado.

Os adultos de hoje agem como crianças irresponsáveis

Porque acusar  de moralistas as pessoas que aconselham as outras? Será que acham bonito perder o seu próprio controle pessoal? E as pessoas também não perceberam o mico chato que muitos símbolos de classe e inteligência tiveram que pagar em prol de uma sociabilização falsa e verdadeiramente hipócrita.

Sim, porque se, como no exemplo citado nesta postagem, uma celebridade "não foi hipócrita" em agir "como a plebe", ela foi sim hipócrita por achar que uma atitude irresponsável iria fazê-la a ser incluída na sociedade comum.

Celebridades, assim como os adultos influenciados. também agem como crianças birrentas, ao elogiarem atos de irresponsabilidade. Para elas, o que os sensatos chamam de irresponsabilidade se trata de um direito. Tá, temos o "direito" de nos enlouquecer. Mas não temos também direito de salários melhores e qualidade de vida no mínimo dignas?

Defendendo seu direito de irresponsabilidade, muitos dão show de imaturidade e submissão a regras sociais mesquinhas, matando de vez, como num suicídio ético, o bom senso. E assim caminha a humanidade que ao mesmo tempo que se alegra em ver uma celebridade errando como a grande parte da plebe, usa o prestígio da fama para legitimar nossa irresponsabilidade. 

Isso é uma grande prova inegável que a sociedade brasileira é uma das mais atrasadas do mundo e não está nem um pouco afim de se evoluir e emadurecer. O que justifica a permanência quase eterna de problemas, preconceitos e injustiças que se arrastam por décadas em nosso cotidiano.

Para encerrar, algumas perguntas: que lição de vida uma celebridade pretende dar com o um episódio de embriaguez ou de qualquer atitude irresponsável? Que tipo de evolução social terá uma sociedade que aprova atitudes como essa? Vamos atingir a perfeição humana errando sem parar?

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