Graças a muita propaganda midiática e o pouco interesse dos brasileiros em verificar informações, um gigantesco mito foi criado em torno do cantor Michael Jackson que nem mesmo os nativos do país-natal do mesmo conseguem aceitar. Pois lá nos EUA, Jackson é um cantor mediano como muitos e que teve a sorte de virar uma hegemonia midiática.
Para os brasileiros, mais que hegemonia midiática, Jackson se transformou no maior cantor de todos os tempos, considerado por muitos brasileiros - incluindo intelectuais da música, pasmem! - exemplo de arte pura e extremamente perfeita. Embora a prática mostre algo muito aquém disso.
Para que Michael Jackson, um cantor que não chega a ser ruim (há muita gente muito melhor que ele, mas sem ter 1% da repercussão do superestimado cantor), mas está bem longe do mínimo de genialidade, fosse considerado o supra-sumo da perfeição, teve que ser construído um festival de mentirosas lendas ao redor do cantor, que serão desmontadas nesta postagem.
São coisas tão reais quanto a teoria da Terra Plana que são aceitas com naturalidade pelos admiradores - e até pelos não-admiradores - brasileiros de Jackson, que confundem pompa com qualidade e hegemonia midiática com reconhecimento de valor cultural.
Controle da obra
Para começar, o que os defensores de perfeição de Jackson não sabem é que ele nunca teve controle sobre a sua obra. Ele era cercado por produtores, cineastas e uma gama de profissionais, estes sim geniais, que com base de um senso de marketing, resolveram construir Michael como um gênio sedutor, se aproveitando da capacidade instintiva do público-alvo.
O que nós, brasileiros, entendemos como "perfeição artística", é na verdade fruto desta intensa propaganda midiática. os gestores por trás de Jackson construíram um cenário de pompa, luzes, sensualidade e falso intelectualismo que deslumbra qualquer pessoa. Esta soma de fatores, associada a imagem do cantor de Thriller causou um fascínio coletivo que nos fez ajoelhar diante dele.
Enxertos de qualidades não-existentes
A nossa tradição de confundir pompa com qualidade fortaleceu a mitologia que cerca o cantor, fazendo-nos enxergar qualidades que não existiram na carreira de Jackson. Para que ele fosse considerado gênio, foi preciso inventar estórias falsas sobre ele, recorrendo à fake news, ao pensamento desejoso e até ao terraplanismo, para promovê-lo.
Sem verificar a sua obra, mas baseando apenas em esterótipos ou em episódios isolados, Jackson é tido como um roqueiro intelectual preocupado com a humanidade, adepto do esquerdismo e que foi um incansável ativista dos direitos humanos. Não há fatos que comprovem isto e os poucos momentos supostamente ativistas, foi de forma meio precária, quase religiosa, sem transformações.
Quanto ao fato de ser roqueiro, é na verdade uma forma desesperada de tentar "melhorar a sua qualidade musical" através da rotulação. Embora tenha gravado poucos rocks (e Beat it não é um deles, pois apesar do escancarado solo de guitarra, tinha batida funk. Sim, funk), é tido como um roqueiro autêntico. Chico Buarque gravou mais de 100 sambas e nunca é rotulado de sambista.
Mas houve quem apelasse para o terraplanismo: o rotularam de "ativista do comunismo" (o jornalista Leonardo Stoppa), pesquisador de World Music (Gilvan Moura, da Beatles School), de revolucionário da cultura (Rede Globo), de "alma gêmea de Renato Russo" (um fã em uma comunidade da Legião urbana nas redes sociais), de percussor do rock mundial (um internauta disse que todos os roqueiros dos anos 80 para cá foram influenciados por Jackson, o que é um delírio) além de muitas outras barbaridades terraplanistas. Surreal!
Qualidade musical aquém do genial
O mito da perfeição sonora veio junto com o mito da genialidade. Michael Jackson nunca foi de fato genial, mas a pompa em torno dele fez nascer e crescer o falso mito de sua genialidade, pois no Brasil, a cultura é analisada de forma subjetiva e não objetiva. A crítica cultural brasileira, se existente, é bastante precária e não confiável.
Avaliando com objetividade o trabalho de Jackson, despido de qualquer paixão e gosto musical, chegamos a conclusão de que o eterno garoto nascido em Gary não era necessariamente excelente ou ruim. Pode se considerar bom, sem qualidades surpreendentes.
O seu melhor trabalho é Off The Wall e não o ultra-festejado Thriller, por ter sido o mais vendido. Off The Wall foi o único trabalho de Jackson com alguma espontaneidade - mesmo que guiado por produtores como o maestro Quincy Jones e o fundador da banda Heatwave, Rod Temperton, hoje falecido.
Thriller (considerado o mais perfeito álbum do mundo segundo Ricardo Seelig da Collector's Room) é um bom álbum, com altos (Human Nature) e baixos (P.Y.T.). É um álbum mediano, mas gostoso de ouvir em alguns momentos. Mas culturalmente não tem muito valor, a não ser economicamente, por ter sido um dos álbuns mais vendidos da história. Mas vendagem e importância cultural não são sinônimos, embora muita gente pense que seja.
Do Bad em diante, Jackson só faria álbuns entre medíocres e ruins. Bad inclusive, inspirou a sonoridade que muitas boy bands usam até hoje. Aliás, graças a Jackson que não temos mais cantores jovens de voz grossa: todos cantam fininho usando coreografias inspiradas no falecido cantor.
Mas associar Jackson às duvidosas boy bands incomoda, mas é um fato nitidamente incontestável. Se Michael Jackson realmente influenciou alguém foi o pop juvenil atual, de sonoridade repetitiva e preocupação visual maior que a auditiva.
Pessoas tendem a confundir popularidade com qualidade e se um disco foi o mais vendido é porque tem extrema qualidade, o que é falso. O disco da banana do Velvet Underground vendeu pouco e foi bem impopular e é uma obra prima inquestionável, muito melhor que qualquer coisa feita por Jackson.
Conclusão
O resumo da ópera: Michael Jackson foi um nome mediano da música, um produto comercial, feito para vender, sem plena espontaneidade, de valor cultural duvidoso, ciente das regras da cultura de mercado, gravando apenas o que pudesse ser vendido e que o marketing direcionado para o terceiro Mundo (EUA e Europa são espertos demais para caírem nessa) o transformou em gênio máximo.
Quase tudo que se fala sobre Michael Jackson é uma mentira e se no Brasil há muitos que acreditam na genialidade e na perfeição do cantor (falecido por problemas de saúde, com o corpo fragilizado pro inúmeras cirurgias plásticas, e não por conspirações políticas como andaram espalhando) é porque o povo brasileiro ainda cada vez mais emburrecido e incapaz de analisar fatos, estando preso na credulidade herdada das religiões, o que faz aceitar qualquer mito que surja diante dele.

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