(Texto escrito na mesma data, no ano de 2016)
O filme Aquarius, do diretor Kleber Mendonça Filho, responsável pelo excelente O Som ao Redor, produção pernambucana que em si já tem material para uma boa polêmica, por envolver o problema da especulação imobiliária versus preservação de patrimônio histórico, um assunto que interfere diretamente no modo como a política e feita em nosso país.
O filme Aquarius, do diretor Kleber Mendonça Filho, responsável pelo excelente O Som ao Redor, produção pernambucana que em si já tem material para uma boa polêmica, por envolver o problema da especulação imobiliária versus preservação de patrimônio histórico, um assunto que interfere diretamente no modo como a política e feita em nosso país.
Mas o filme cresceu ainda mais quando a equipe de produção, junto com elenco, resolveu utilizar a divulgação no famoso e tradicional Festival de Cannes para avisar ao mundo sobre o triste golpe político que aconteceu no Brasil. Foi uma divulgação e tanto, além de mostrar que temos sim, celebridades dispostas a ficar do lado da população e da democracia.
Muito provavelmente por vingança, os respectivos ministros da Justiça e da Cultura, Alexandre Moraes e Marcelo Caleiro (curioso que eu sou Marcelo e tenho um irmão chamado Alexandre - que não faz parte da equipe deste blog, nem como colaborador - mas nós condenamos o golpe), combinaram de censurar Aquarius por causa de "relações sexuais complexas". Como é que é?
O sexo que aparece no filme é apenas um detalhe, como algo que faz parte do cotidiano da protagonista. Nem é o foco no filme. Será que o fato de envolver uma mulher de quase 70 anos incomodou os integrantes de um governo onde um presidente setentão é casado com uma menina que poderia ser sua neta? Provável que não, mas achei interessante propor esta questão.
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Na verdade a censura foi uma vingança contra elenco e equipe pela justa e importante denúncia feita sobre o golpe. Quase todas as instituições brasileiras, infelizmente, se tornaram cúmplices do golpe e os brasileiros ficaram sem ter a quem recorrer. Se não há brasileiros para nos socorrer, é preciso pedir socorro ao mundo, principalmente a sociedades que passaram por esta triste experiência antes.
A censura feita pelos ministros não foi aceita passivamente. Aliado aos golpistas, o jornalista de orientação fascista Reinaldo Azevedo, havia falado mal do filme recomendando que os "homens de bem" (como os fascistas gostam de ser chamados) não vejam o filme. A equipe de Aquarius pegou a frase e colocou no cartaz oficial do filme como uma "recomendação".
A ideia é ao mesmo tempo atrair as pessoas sensatas que reprovam todo tipo de intolerância e espantar fascistas e simpatizantes deste golpe. Pelo menos, ao ler o cartaz, os fãs e concordantes de Reinaldo Azevedo, troleiros em potencial, são impedidos de invadirem os cinemas para fazer arruaça durante a exibição do filme. Além de serem objeto de chacota por ver uma reprovação sendo utilizada como chamariz para valorização do excelente filme.
Foi uma boa sacada da equipe. Não vi o filme, mas recomendo. Vi O Som ao Redor e gostei muito Pretendo assisti-lo novamente, pois ele, por ser denso e inteligente (lembra bem os filmes de Goddard), lança questões que muitas vezes não aparecem na primeira audiência.
Mas conhecendo o modo de pensar de Kleber Mendonça Filho e dos consagrados atores de seu Aquarius, essa estória de uma mulher que defende um edifício antigo prestes a ser demolido para dar lugar a um novo, dá para perceber que após assiti-lo, muitas lições de vida serão aprendidas pelo seu público, mostrando um novo modo de enxergar a nossa triste realidade.

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