sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Texto reflete sobre nosso desejo de pertencer a um grupo

OBS: Os seres humanos são seres sociais. Os brasileiros são ainda mais sociais. Pertencer a um grupo favorece a satisfação de muitas necessidades. Mas isso não é de graça, pois em troca, há regras a serem obedecidas. Como envolvem descontração e hedonismo, são regras que a maioria concorda em seguir de forma bastante descontraída. Os que se recusam são desprezados ou até expulsos do grupo.

O convívio em grupo é tão instintivo para nós que mesmo o mais ignorante, sem o mínimo de escolaridade, têm a consciência desta necessidade. Resta aos que se recusam a cumprir as regras de convívio social - no caso do grupo de "brasileiros", gostar de futebol e de cerveja - a solidão que pode ser encarada positivamente.

Embora esta solidão exija do solitário uma batalha pela sobrevivência que será mais difícil que a que estivesse se fizesse parte de um grupo social. Em grupo, todos sabem que se conquistarmos a simpatia alheia, conquistamos também as pessoas que irão nos ajudar nas necessidades mais básicas.

O texto abaixo, do escritor Gutto Carrer Lima, faz esta inportante reflexão sobre o pertencimento a um grupo, meta de 90% dos brasileiros. Leia com atenção e veja se não é isso mesmo.

Pertencimento

Publicado em Obvious, por Gutto Carrer Lima

Precisamos e queremos pertencer a algo que não nos possua. A solidão é a solitude que não sabe viver sozinha, e por isso busca desesperadamente a companhia do pertencer, por vezes ignorando a sua qualidade e o peso das suas regras.

Solitude errante

A SEGURANÇA DO PERTENCIMENTO: Podemos aprender e ensinar muito sobre um assunto específico vivendo sob o guarda-chuva do pertencimento a um grupo. É seguro, raramente os integrantes de um grupo de participantes espontâneos discordarão entre si, a menos que o integrante seja novo nele e esteja aprendendo. Discordar num grupo, especialmente se for novato, é pedir para ser excluído. Assim, as "tribos" se formam. E se fecham, como modo de protegerem-se para garantir que os seus conceitos perdurem em paz.

FUGA À SOLIDÃO: Apesar desta segurança e do muito que se aprende, quanto deixa-se de conhecer acerca de si mesmo preso aos ditames de um grupo? Até que ponto somos capazes de nos desvincular dos conceitos prontos? O quanto somos dependentes da sensação de pertencimento? Precisamos realmente pertencer a algo? Onde está a nossa liberdade de ser, considerando que quem "pertence" nunca poderá ser plenamente livre? Precisamos e queremos sim, pertencer, a algo que não nos possua.

AUTO-SUFICIÊNCIA: Quanto menos preciso pertencer, mais me aproprio de mim mesmo e maior é a liberdade que conquisto. O preço da liberdade é também a sua recompensa: a solitude, o desapego, que são causas e efeitos da auto-suficiência. Como um cometa errante, a solitude viaja pelo universo visitando astros de maior grandeza sem se prender a nenhum deles, exceto à supremacia do sol, que limita sua rota mas também lhe confere o seu movimento.

SOLITUDE NÃO É SOLIDÃO: Viver em solitude não é viver em solidão. A solitude encontra companhia de muitas formas. A solidão é a solitude que não sabe viver sozinha, e por isso busca constante e desesperadamente a companhia do pertencer, por vezes ignorando a sua qualidade e o peso das suas regras.

UTOPIA: As regras do convívio são tão difíceis de serem integralmente seguidas que geram a necessidade das normas e leis. E o que é lei é soberano à vontade. Numa sociedade em que todos fossem conscientes o bastante em todos os aspectos do respeito, as vontades de cada um convergiriam para o bem comum. Uma utopia, porque nossos desejos são facilmente manipulados. E por quem? Pelos grupos! Sejam eles quais forem, de uma mesa de bar à uma Nação.

VIVENDO A SOLITUDE: Minha experiência mais forte com a solitude deu-se circunstancialmente quando morei no campo. Nunca imaginei ir para lá e de repente lá eu estava, conhecendo-me sem nenhuma distração de mim mesmo além do espelho e do céu aberto numa romântica casinha com varanda. As mãos de Deus também se encarregaram de queimar a televisão com um raio numa tarde tempestuosa... e tempestiva. O celular só funcionava quando queria, de sorte, combinado com ter crédito para tal. E internet, somente na lan house a 15 quilômetros de distância, na cidade.

SOLITUDE PERDIDA: Ao voltar à vida urbana, perdi muito do que só no campo eu pude enxergar, além da paisagem. É um típico exemplo de como podemos regredir quando fora do ambiente adequado e distanciados de nossas legítimas vontades e afinidades.

Hoje necessito mais de outras pessoas, não tanto de suas presenças físicas, mas do delicioso olhar virtual diante o qual a internet me colocou. Ou seja, pertencimento, nos grupos em que participo ou eu mesmo formo. Há regras? Sim. Elas estão nas linguagens da expressão. Se eu quiser o olhar de muitos, bastará eu escrever o que muitos gostam. Se eu escrever o que sinto, serei excluído por muitos e aceito por outros, no entanto nem sempre e nem por todos, entre os poucos.

REENCONTRO: Esse é um dos aprendizados da rede social: não se pode agradar a todos o tempo todo. Portanto, o pertencimento é limitado e me limitará quanto maior for a busca insistente pelo outro, em vez de o encontro comigo mesmo.

E onde está este encontro? Ele está aqui, neste exato momento em que escrevo sem elaborar antes, permitindo-me tomar consciência do que minha alma já sabe e desejando saber-me inteiro. Cada sentença escrita é uma lição para quem a escreveu. Só me resta aprender.

O COMPARTILHAR: Os termos: "fãs", "seguir", "seguidores", são inadequados ao meu ver, porque eles nos induzem a ser e/ou a ter fãs, a seguir e/ou a ter seguidores. Não sei que outros termos poderiam ser usados que não trouxessem significados subjetivos de pertencimento. Gosto do "compartilhar", esta ação que nos proporciona levar aos outros o que, sem ela, somente a nós pertenceria. Recebê-la ou não, concordar ou não, é uma escolha livre que nos exclui ou nos torna parte do que compartilhamos, sem necessariamente representarmos e pertencermos a um ou outro grupo.

ACOMPANHANDO E BEM ACOMPANHADO: Nossas reais companhias passarão por fases e poucas se manterão. E não será por falta delas. Acontece de querermos quem não nos quer, o que causa uma certa frustração e sentimento de exclusão. Acontece de não notarmos quem está nos querendo, e com isso podemos estar perdendo. Acompanhar é um ato de amor, é importar sem desprezar a própria importância. Bem acompanhado é quem consegue notar e aceitar a quem quer ter a sua companhia, e valorizá-la tanto quanto valoriza a quem gosta ou gostaria de acompanhar. Porém, por mais que alguém seja assediado, não dará conta de retribuir a todos individualmente, o amor que lhe é oferecido. Ganhando ou perdendo, o tempo e a afinidade filtrarão naturalmente quem vai e quem fica.

Este círculo vivo é minha real companhia, formado por quem respeita a minha solitude e nunca me deixa só, e sente minha presença mesmo quando distante, tal como também posso senti-la. Sem regras. Sem condições. Um fluxo regido pelo respeito recíproco de aceitar e ser aceito, como se é.

Este texto é parte do livro Desapego, de Gutto Carrer Lima (Copyright © 2017 Desapego)

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