A burguesia entendeu que o rock tem a vocação de rebeldia legítima, daquela capaz de mudar realmente o mundo. Mas mudar o mundo significa tirar a burguesia do poder e melhorar a distribuição de renda e direitos. Isso não pode. Era preciso fazer alguma coisa.
A burguesia decidiu se apossar do rock e distorcê-lo para que nunca incomodasse o sistema. A coisa chegou a tal ponto a favorecer o surgimento da figura do roqueiro de direita, uma aberração que naturaliza a contradição de ser rebelde sem querer mudar nada. Uma rebeldia pela falta do leitinho de ornitorrinco tão presente na infância de muitos filhos de magnatas.
Com o tempo, com muitos burgueses fingindo serem "roqueiros deste criancinha", com as bandas Pink Floyd e Dire Straits com alta popularidade entre homens de negócio, trataram logo de domesticar o gênero. Inclusive colocando o gênero em programas infantis, com bichinhos fofos em bandas com guitarra baixo e bateria cantando coisas como "é tão bom obedecer a mamãe".
Mas para parecer que ainda há rebeldia no mundo, transfere-se o estereótipo de transgressão a gêneros menos afeitos a rebeldia como o hip hop estadunidense e o "funk" carioca. Classificando o caráter de ridiculosidade como se fosse um novo tipo de inconformação. Irritar por uma postura ridícula e não pelo desejo de mudança.
Com isso, foi aos poucos se consagrando a ideia de que a cultura rock tem que ser patética, infantil e cuja rebeldia não pode ter causa. faz o sinal do capeta e põe a língua para fora em nome do leitinho de ornitorrinco ausente na dispensa, mas nunca pelo desejo de fazer como um Robin Hood, tirando de quem tem demais para satisfazer o mínimo necessário a quem nada possui.
O rock, originalmente soou perigoso ao sistema. Mas a burguesia o sequestrou e tratou logo de domesticá-lo. Por isso que não cansamos de ver dentro do rock inúmeros exemplos de conformismo e até de conservadorismo mais retrógrado. Mas até entre quem se dispõe a brincar de rebelde, o conformismo aparece em sua surpreendente plenitude.
Se não bastasse toda a farofada que entorpece o rock nas últimas décadas, temos a adesão de ninguém menos que Miley Cyrus, a eterna Hannah Montana a ingressar no gênero com seu novo álbum, Plastic Hearts. Um álbum que nem bem lançado, tem recebido elogios, mesmo sendo a cantora vindoura de um universo - o pop teen - que representa o túmulo da produção musical pelo mundo.
Filha de Billy Ray Cyrus, um cantor que mesclou country e folk-rock, Miley (nascida Hope), tem ganhado respeito no meio roqueiro brasileiro por causa de sua (falsa) rebeldia. O leitinho de ornitorrinco faltante deverá ganhar uns bons trocados na conta bancária de Hannah Montana.
Se a adesão de Hannah Montana - que no seriado era definido como "roqueira" mesmo cantando músicas infantis - ao gênero não é a única desgraça a acontecer com a cultura rock, já com o cadáver bastante apodrecido, serve como um bom sintoma da decadência do gênero, cuja banda mais popular entre os "especialistas", Guns'n'Roses, nunca passou de um saco de estereótipos de falsa rebeldia.
Sinceramente, o rock está morto. Com o cadáver já totalmente decomposto. Faltou fazer o velório e assinar o atestado de óbito. Quem se habilita?

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