Esta estória ilustra bem a política. Quem pensa política tem lado. Pode até não querer rotulo disto ou daquilo, mas todos, sem exceção, assumem uma postura. Até mesmo a "não-postura" em si é um posicionamento político. Somente palitos não possuem lados e quem se julga "neutro" ou isento", sem saber está agindo a favor de um dos lados, geralmente o mais poderoso e forte. O dono do muro.
A grande mídia, supostamente tida como imparcial, sempre falou de "centro" político, se comportando como o desavisado que se coloca em cima do muro. Mas quem é bem informado, sabe que os meios de comunicação são controlados por grandes magnatas, todos com interesses bem particulares, sempre de acordo com a sua ganância de ter muito mais que a população inteira de um país. E trabalham por isso e para isso.
Sendo um enrustido porta-voz desses grandes magnatas, a grande mídia, sempre trabalhou para defender o tal "centro" político, que sem este disfarce, se mostra como a direita moderada, cheirosa, elegante como deve ser um magnata instalado na Avenida Faria Lima, o metro quadrado mais caro da cidade mais rica do país, São Paulo.
Mas ela tem que forjar imparcialidade para atrair o maior número de adeptos entre seus receptores. E não falta quem esteja pronto para cair feito patinho no conto da imparcialidade, vendo na grande mídia, aquele amigo confiável que conta as novidades que soube através de suas andanças. Afinal, a grande mídia, precisa de muitos ouvintes, e a pose de "imparcial" lhes permite atrair maior número deles.
Forjando imparcialidade de si mesma, se aproveita também para forjar imparcialidade do lado político que ela apoia. Nem a extrema direita, sempre sádica e de mau humor, nem a benevolente esquerda moderada, pois repartir renda, bens e direitos é a última coisa que os magnatas controladores da grande mídia desejam. É preciso criar uma terceira via que satisfaça o mega-empresariado.
Centro político não é centro... porque favorece apenas um dos lados
Eles se assumem de centro. Mas afinal, o que é centro? A ideia de centro passa, segundo a lógica, por alguém que esteja trabalhando em prol dos dois lados. Na teoria, seria alguém que tornaria os ricos menos ricos e os pobres menos pobres, criando uma situação onde ambos fossem satisfeitos em seus direitos, eliminando qualquer tipo de conflito entre classes. Isso em tese.
Mas não é isso que vemos na prática. Magnatas são gananciosos e por isso mesmo é que são magnatas. Controlam o poder de forma bem suja, mas invisível da opinião pública, que os enxerga como os pobres trabalhadores que deram certo na vida (meritocracia) e portanto, os "irmãos mais velhos" que merecem ser ouvidos e compreendidos.
Magnatas são bondosamente nobres. Se não ajudam as pessoas, é porque "tem gente que atrapalha". E "quem atrapalha" é a esquerda. Podres são os esquerdistas, "imorais, arrivistas e sem condições reais de crescimento" - segundo a crença direitista - e apoiadores de "bandidos" e" corruptos".
Estranho que sendo "centro", os políticos e meios de comunicação que se assumem como tal só favorecem um lado, o dos magnatas. Claro que eles têm que forjar uma falsa preocupação com os mais pobres, pois é preciso atrair apoiou para ganhar poder. Fingir de coitados sofredores, de administradores cheios de dificuldades, para despertar comoção do povo e tornar justo o sistema cheio de desigualdades.
Como o modelo milionário no conto de Oscar Wilde, magnatas tiram o terno e o sapato de verniz e se travestem de povo com uma camiseta (cara, claro, a natureza não dá saltos), jeans e sapatênis, para que não despertem desconfianças.
É preciso disfarçar de "gente como a gente" para que os pobres deem ouvidos aos magnatas, que fingindo preocupações sociais, se apresentam como tutores de uma carente humanidade e defensores árduos de uma justiça social que somente uma suposta posição centrista consegue resolver.
Portanto, é este pensamento de que existe um "centro", gente supostamente disposta a equilibrar os interesses de ricos e de pobres, que faz a população mal informada se tranquilizar, achando que o melhor a fazer é se contentar com o mínimo que possui, mesmo abaixo da dignidade, para que os privilégios do "bondoso capitalista" não sejam prejudicados.
Afinal, esses capitalistas, tão bondosos, são o "centro". Eles não são maus. São apenas os nossos irmãos, "gente como a gente" que apenas teve a capacidade de vencer na batalha da sobrevivência econômica. Segundo este centro, um dia chegaremos lá. Todos seremos magnatas. Não sabemos quando. Mas no fundo, tolo é quem ainda acredita nisto.

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