O novo conceito de esquerda, que foge do antigo proletariado aos moldes soviéticos - o proletário brasileiro hoje é claramente direitista, enquanto somente a classe média abre seus braços para a nova esquerda, mais identitária e menos trabalhista - tem muito a ver com o perfil imaginado do fluminense, consagrado pela estereotipada figura do malandro carioca.
Mas como eu disse, é um estereótipo, uma imagem. A realidade cotidiana mostrada no Rio de Janeiro mostra justamente o contrário, provando que ser alegre, simpático e ter ginga não significa ser de esquerda. Uma pessoa alegre e simpática pode sim aderir a ideais retrógrados. Até melhor que um conservador aos moldes tradicionais, pois com simpatia, fica mais fácil convencer os outros a aderir ao seu ponto de vista.
O que nos inspirou a escrever este texto são dois episódios, o que está acontecendo em Maricá, com a morte de vários jornalistas locais e a decisão de Marcelo Freixo, principal líder do PSOL, de se unir a Eduardo Paes (DEM/RJ), discípulo de César Maia, este pai de Rodrigo Maia, a uma frente ampla para - supostamente - combater o bolsonarismo. A decisão causou polêmica dentro do partido e pode causar a saída de sua principal liderança dele.
Maricá é governada pelo PT e mostra ser o único caso bem sucedido da esquerda no estado do Rio de Janeiro. Esqueçam Niterói, tido como "meca atual da esquerda carioca". O grupo que lidera o município pula de partido em partido e segue a metodologia de Eduardo Paes, um maíaísta típico.
Niterói inclusive, dá sinais de abandono, nada está sendo feito para melhorar a cidade que aos poucos se torna uma "nova Baixada Fluminense" e que usa a lorota do IDH alto para não ter que fazer nada no município. Isso apesar da classe média niteroiense pensar que a cidade está no auge de sua perfeição.
No fundo, o estado do Rio de Janeiro mostra um conservadorismo um pouco diferente do estereotipado. Digamos que seja o verdadeiro neo-conservadorismo, já que é um conservadorismo 2.0, mais convincente e mais adaptado aos tempos atuais, por tentar impor uma ideologia retrógrada com métodos ultra-modernos e fugindo de antigos estereótipos. Ficou fácil ser retrógrado sem parecer um.
É surpreendente para muitos esquerdistas acreditarem no suposto progressismo de um estado cujos principais municípios são subdesenvolvidos. Mal sabem eles que os trabalhadores de regiões subdesenvolvidas como a Baixada Fluminense e São Gonçalo, não estão mais com as esquerdas.
A mudança de pensamento das esquerdas, mais preocupadas com empoderamento e identitarismo do que com qualidade de vida, afastou as classes trabalhadoras que votaram em massa em Bolsonaro e que ameaçam votar novamente, por entenderem as maluquices do capitão serem menos nocivas que o identitarismo esquerdista, que vai contra o senso moral de quem vive com uma igreja neo-pentecostal na frente de sua casa, algo muito comum nas regiões mais pobres do estado do Rio de Janeiro.
Mesmo com todo o identitarismo, o esquerdismo do Rio de Janeiro é fraco edm matéria de desejar mudanças sócio-econômicas. Mesmo assim, ele pode estar sendo influente em toda a esquerda nacional para que esta largue o trabalhismo e se torna identitária, defendendoi coisas so tipo "ao invés de tirar o pobre da pobreza, vamos criar um orgulho de ser pobre, para que o pobre se empodere, mesmo se mantendo em plena e insolúvel miséria".
Caso toda a esquerda brasileira use o modelo fluminense como modelo, preferindo torná-la mais identitária do que trabalhista - já que brigar com empresários nunca deu certo no Brasil - isso pode enfrequecer o pensamento progressista, fazendo com que a classe trabalhadora, já sequestrada pelos neo-pentecostais, procure outra liderança política que satisfaça suas convicções.
Infelizmente, em todo o Brasil, a esquerda tem optado pelo caminho do identitarismo. Embora não negue as causas trabalhistas, as subestima, considerado mais prioritário empoderar excluídos do que melhorar a qualidade de vida deles. Essa guinada tem afastado a classe trabalhadora e atraído a classe média remediada, esta sem grandes preocupações humanitárias que senão a paliatividade do identitarismo empoderador.
Por outro lado, mesmo sem dar a verdadeira dignidade ao povo pobre, pelo menos os neo-pentecostais resolvem de forma paliativa problemas da classe trabalhadora, que ainda acredita na bondade de Deus. E isso acaba por reforçar ainda mais o pensamento conservador do Rio de Janeiro, que sorri diante de um passado retrógrado, estabilizado no presente do século XXI, e que recusa a ser mudado.
O malandro carioca tem ginga. Mas não quer mudança.

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