Essa ingenuidade de encarar cultura e esportes como coisas exclusivamente positivas, como virgens imaculadas e totalmente intocáveis, imune a erros, faz com que as esquerdas cometam dois erros graves: 1) o de ignorar a fortíssima influência capitalista em ambos; 2) a mania de embutir intelectualidade em algo feito apenas como diversão ou como mera fonte de obter renda e sustento.
A forte influência capitalista na cultura e no esporte
As esquerdas, ingenuamente, ignoram ou subestimam a influência capitalista na cultura e no esporte. Acreditam na lendária tese, com requintes de contos de fada, de que artistas e esportistas são sempre espontâneos e que decidiram por conta própria levar alegria e esperança às grandes massas, com se isso fosse um fim por si só.
Ignoram que além de uma excelente fonte de renda e trampolim relativamente fácil de mobilidade social, a cultura e o esporte são ferramentas importantes e tradicionalmente bem sucedidas de manipulação mental das massas, uma forma de mantê-las dóceis e acomodadas.
O sucesso da manipulação tem muito a ver com os estereótipos de alegria, diversão relacionados a ambos. No esporte, o estereótipo ainda é mais nobre, pois envolve luta pela sobrevivência, cooperação entre as pessoas, competitividade (?!) e vitória após a dificuldade. Quer melhor valor que estes?
Essa associação entre cultura e esporte com estes valores considerados positivos e nobres consegue servir de meio de domesticação da população, que enxerga na cultura e nos esportes um substituto à revolta e um meio de subir na vida e livrar dos problemas de forma paliativa, sem mexer no sistema, mantendo as relações de poder e protegendo a ganância capitalista, mantendo a intacta.
Próteses de intelectualismo em atividades lúdicas
Outro erro que as esquerdas cometem em relação à cultura e ao esporte é embutir falsos referenciais de intelectualidade e rebeldia em atividades lúdicas e em seus praticantes, como se estes tivessem se envolvidos em tais atividades por motivos intelectuais ou políticos.
Se esquecem os esquerdistas que boa parte dos artistas e esportistas entram nesta ou apenas para se divertir ou para simplesmente ganhar dinheiro. Muitos tem um nível intelectual e de escolaridade um tanto atrofiados e demonstram estar interessados apenas em obter fama, dinheiro e diversão.
Muitos nem querem saber de engajamento político-social mas há os que se engajam muito mais como forma de promoção pessoal - pessoa engajadas atraem mais simpatizantes, aumentando a popularidade e as vendagens - do que por afinidade ideológica. Sabem que o público se comove facilmente com líderes engajados e agem de forma estratégica a aumentar as suas fontes de renda.
Mas no geral, artistas e esportistas não conhecem os referenciais que são embutidos por intelectuais espertos que querem se promover às custas destas celebridades. Mesmo sem saber nada, essas celebridades ganham fama de intelectualizadas graças às próteses artificialmente embutidas naquilo que fazem, dando autenticidade a algo criado apenas para gerar renda e acomodar as massas.
As esquerdas acabam corroborando com esta falsa intelectualidade embutida artificialmente e acabam difundindo de forma insistente esta falsa associação, como se o mero artista ou mero esportista, muito mais preocupado com as finanças que terá que pagar em sua vida cotidiana, fosse um guerrilheiro bolchevique preocupado com o bem estar das massas, com o cérebro fervendo de ideais.
Esses dois graves erros faz com que as esquerdas ajam de forma extremamente ingênua diante da cultura e do esporte, ignorando o lado ruim sempre presente, mas pouco comentado - a não ser por alguns direitistas - de usar os valores positivos relacionados a estas duas coisas, para manter multidões imensas cada vez mais passivas e esperançosas em benefícios de um futuro que nunca vai chegar.

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