Interessante o que acontece na sociedade de hoje. Ao mesmo tempo que as empresas exigem cada vez mais outros idiomas para funções que se limitam a conversar com os caipiras daqui, na hora do lazer, essas mesmas empresas relaxam e dão prioridades a filmes dublados, se adaptando a quem tem dificuldade de ler legendas e de compreender idiomas estrangeiros.
Aldoux Huxley, em seu livro Admirável Mundo Novo, havia mostrado uma sociedade em que era extremamente séria no trabalho e extremamente idiota no lazer. O Brasil de hoje se parece muito com isso. O nosso mercado de trabalho é extremamente exigente - não para melhorar o profissional como dizem, mas para filtrar o excesso de demanda de desempregados, já que os ricos não querem abrir mão de seus supérfluos para poder abrir mais vagas de emprego e/ou aumentar para salários que sejam realmente justos.
Para filtrar profissionais, surgiu a "maravilhosa" ideia de exigir um segundo idioma até mesmo para quem não vai se encontrar com nenhum estrangeiro, já que quanto mais exigências, maior é a filtragem, já que as vagas são sempre escassas. Eu disse SEMPRE!
Mas na hora do lazer, é exatamente o oposto. Como no lazer, as pessoas caminham com as próprias pernas, sem patrão para encher o saco, há o medo de subversão . Pois população bem educada conhece as tramoias que mantem os poderosos no poder. Para que o sistema continue com as injustiças que favorecem os poderosos, a meta é manter a sociedade burra no lazer. E estimulá-la a continuar burra é algo feito com insistência e sem medir esforços.
Por isso mesmo que o sistema que exige idioma estrangeiro para o trabalho, estimula o não aprendizado nas horas livres, pois conhecendo de fato um outro idioma podemos, por exemplo, checar em sites estrangeiros se o que a mídia local inventa sobre o que acontece fora de nosso país é verdade ou não (e muitas vezes não é). A mídia local não vai querer passar por mentirosa, mesmo mentindo para se beneficiar e favorecer seus tutelados.
Por isso mesmo é que num mesmo sistema onde a exigência de um idioma estrangeiro, sobretudo o inglês, no mercado de trabalho é chocada com o estimulo ao não aprendizado na hora do lazer, através de obras dubladas que além de incomodar a muitos com aquelas vozinhas artificiais e chatas, nos impedem de ouvir as vozes dos próprios atores, avaliando a sua atuação. Até porque não dá para dizer que fulano ou sicrano atua bem se ele está com a voz de outra pessoa.
Exigir idioma estrangeiro para o emprego, oferecendo obras dubladas no lazer é mais uma contradição num país cheio de contradições que insistem em não ser resolvidas, se transformando muitas vezes em tradições rotineiras que deveriam ser esquecidas.

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