Claro que não dá para esperar um engajamento trabalhista em quem já está estabilizado economicamente. O ser humano não é naturalmente altruísta e gosta de menor esforço possível. Como se engajar de forma esforçada a uma causa que não é a sua? Se a classe média está quase toda com as esquerdas, é porque alguma coisa mudou. O antigo esquerdismo dos sindicalistas zangados não existe mais.
O fracasso das políticas trabalhistas fez com que as esquerdas se reinventassem. Até porque as esquerdas precisam de dinheiro e o secreto patrocínio de coletivos de esquerda - feito por grandes magnatas como George Soros e a família Koch, entre outros - os fez mudar de rumo, substituindo as causas trabalhistas pelas causas identitárias.
Causas identitárias são causas que envolvem mais empoderamento (dar poder a uma pessoa ou classe) e representatividade de classes isoladas, além da defesa de seus costumes e ideias. Não são exatamente defesa de direitos e muito menos o desejo de mudança no sistema. É apenas a adequação do mesmo sistema neoliberal a classes que não tinham espaço neste sistema. É o desejo de colocar o oprimido no lugar do opressor.
Fazem parte deste tipo de causa a defesa de grupos como gays, mulheres, negros, etc., além de veganismo, consumo de drogas, vida nas favelas, fé, esportes, e coisas que representem os interesses particulares de certas classes defendidas pelos esquerdistas.
Mas são coisas que não correspondem aos interesses das antigas classes trabalhadoras, tradicionalmente defendidas pela esquerda tradicional. Saem os sindicalistas zangados e entram os travestis alegres a lidera as manifestações das esquerdas. A classe operária olha para isso tudo, estranha e migra para a direita. Até porque na direita, começa haver quem passe a defender, mesmo de forma hipócrita, as causas trabalhistas. Nem que seja para cobrar o troco mais tarde.
O identitarismo transformou os esquerdistas brasileiros em um bando de alienados. Muitos continuam a defender ideia um pouco estranhas para as esquerdas, como astrologia, Cristianismo, ufanismo esportivo e cultura de massa da pior qualidade, normalmente objetos de crítica e de análises frias de intelectuais estrangeiros de esquerda.
Por serem quase todos de classe média alta (classe média na classificação de Jessé Souza), a perspectiva política dos novos esquerdistas brasileiros é bastante subjetiva. Nada é feito de forma realmente racional e o messianismo observado na extrema-direita é também visto nos esquerdistas, mas sem ser considerado como tal.
Para ter uma ideia disto, Lula, por exemplo, não é visto como um gestor público competente, o que ele é de fato. Lula é tratado como uma espécie de "messias", de um "salvador da pátria". Um misto de Papai Noel com Dom Pedro II (um picareta vestido de "médium" até falou que o ex-presidente seria a reencarnação do segundo imperador do Brasil). Um pai, um reles tutor da população que o idolatra.
Por isso que é comum visitarmos as redes sociais dominadas por esquerdistas e lermos verdadeiras asneiras típicas de quem vive divorciado do mundo real. Isso acaba por fortalecer a direita moderada - a extrema segue também fracassada, por ser Bolsonaro um escandaloso evidente) e podemos ter a surpreendente vitória da direita moderada, sem o ódio dos extremistas e sem o deslumbre da esquerda.
O fato é que a esquerda não representa mais a classe trabalhadora. Representa a classe média, feliz com seu salário satisfatório, com filhos e parentes estudando no exterior, achando que tudo se resolverá de maneira fácil, apenas colocando, mesmo sem condições práticas, um esquerdista querido no poder.
Mas a política tem a complexidade muito difícil de ser compreendida por esta classe média, cuja inteligência é focada exclusivamente para as profissões de cada um. As esquerdas sofrem derrotas consecutivas justamente nos momentos em que está mais otimista. Acreditamos que a maior dessas derrotas acontecerá agora, pois o cenário não é favorável para as esquerdas.
Mas o que importa. Classe média vive fora do mundo real. Se os problemas baterem na portas de seus confortáveis condomínios, a solução é ir para o aeroporto, comprar uma passagem para a Europa e curtir a vida. Deixem que o Lula resolva sozinho os problemas do país, para depois ser massacrado pela mídia corporativa, sua arqui-inimiga, e recuperar a falsa fama de um corrupto incompetente.

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