domingo, 15 de agosto de 2021

Causas identitárias, representatividade e contracultura fake

Quase ninguém percebeu, mas no Brasil, o chamado esquerdismo mudou radicalmente. Saíram de cena os sindicalistas mal humorados para dar lugar a uma classe média alta festiva, esperançosa, desfilando alegremente em micaretas para supostamente exigir "direitos" que passam bem longe das causas trabalhistas de outrora. Até porque para essa classe, o trabalhismo foi suficientemente resolvido.

A esses novos "direitos" dá-se o nome de causas identitárias. Não são mais direitos de fato e sim empoderamento ou manutenção/reivindicação de interesses particulares desta classe que, ganha bem, vive uma vida confortável e goza de uma estabilidade que parece indestrutível. Causas trabalhistas? Econômicas? "Para quê, se todo mês entra uma boa quantidade de dinheiro em minhas contas?".

Essas causas identitárias incluem, além da defesa de certas subclasses, cada uma de forma isolada (ao invés de lutar por toda a humanidade, em uma espécie de humanismo), como negros, gays, mulheres, etc., há também veganismo (em parceria com outras causas, as ecológicas), o consumo de drogas, o hedonismo (defesa do prazer a todo custo), e até mesmo causas já defendidas pelos conservadores como a fé religiosa e o gosto por esportes, sobretudo o futebol.

Nas cabeças desses novos esquerdistas, despreocupados e divorciados das causas trabalhistas, essas causas identitárias são prioritárias e correspondem a supostamente dar direitos a classes que tradicionalmente foram excluídas do sucesso capitalista. A ideia é incluí-los para que possam se dar bem no sistema sem mudá-lo completamente. Sim, foi isso que você leu. Sem mudar o sistema.

É uma ilusão achar que trocar o responsável pelo comando de alguma coisa irá mudar o sistema como um todo. A ideia original das esquerdas seria mudar completamente o sistema. Mas Lula e seus histéricos fãs comprovaram que não há interesse nenhum em mudar o sistema sócio-político-econômico. Somente o de incluir as classes oprimidas entre os beneficiados pelo sistema.

Essas causas acabam por gerar um monte de problemas. Um deles é o de simplesmente trocar o comando do sistema sem mudar as suas características. Uma das provas disso, por exemplo, é a colocação de um negro, Barack Obama, no comando dos Estados Unidos da América. 

Colocar um negro no comando para exatamente fazer o que todos os presidentes brancos sempre fizeram. Ou talvez pior, já que incluí o ressentimento de ter pertencido a uma classe oprimida. Com o tempo, há o risco de trocarmos de classe dominante, sem que a opressão e os problemas gerados pela desigualdade desapareçam. 

Além de negros, vemos gays, mulheres, indígenas e outras classes ocupando cargos de liderança e muitos deles seguindo a ideologia do opressor. Todos ocupando posições importantes no sistema, sem mudá-lo na prática.

Com isso, as causas identitárias se revelam uma farsa e mostrou uma bem sucedida forma de controlar as esquerdas para que elas não ameacem o sistema, mas pensando elas estarem sob o controle do mesmo. As causas identitárias ocupam as esquerdas em supostas lutas que não ameaçam o sistema, impedindo-as de tentar rompê-lo através de debates mais supérfluos e lutas mais inócuas.

Substituir as causas trabalhistas pelas identitárias conseguiu manter as esquerdas de pé sem que precisasse punir seus ideólogos e sem causar um caos que deixasse evidentes as tentativas de manter um sistema que continua injusto e desigual. Até permitindo algumas brechas para dar a ilusão de que "as desigualdades estão sendo resolvidas", sem estarem resolvidas de fato.

O que é mais interessante é que estas causas, apesar de inócuas para a essência do sistema injusto que se mantém, dão a ilusão aos esquerdistas de que estão agindo, de que a luta existe e de que alguma coisa está se resolvendo, mesmo que os reais problemas continuem intocáveis, se mantendo crônicos sem que haja uma alma ao mesmo tempo corajosa e compreensiva a  tentar resolvê-los.

Para piorar ainda mais essa inércia disfarçada de ativismo, a fé religiosa, não recomendada pelo esquerdismo original, de formação ateísta, foi incluída entre as causas identitárias e responsável pela sensação de otimismo e pela compreensão subjetiva da realidade, além de representar um altruísmo precário e puramente paliativo, que reforça a ilusão de que tudo está sendo resolvido.

As causas identitárias são uma prova de conservadorismo das esquerdas brasileiras, indispostas a mudar o sistema, pois se sentem muito confortáveis nele. Isso afastou as classes trabalhadoras e aproximou as classes médias. É fato verdadeiro o de que as classes trabalhadoras migraram para a direita, onde encontram quem esteja disposto a ouvir os seus apelos trabalhistas e econômicos.

Mesmo que defendam as classes oprimidas, as reivindicações dos esquerdistas de classe média alta escolhem os representantes mais abastados entre os oprimidos (negros, mulheres, gays, etc. que estejam economicamente estabilizados e socialmente prestigiados para ocupar cargos de liderança em um sistema que se mantém injusto) para dar ilusão de justiça social.

Em resumo, tudo estrategicamente calculado para que o sistema cronicamente injusto e desigual nunca mude, mas dando a impressão de que está mudando. Na verdade mudando a embalagem para que o conteúdo continue perecendo por dentro dela. Colocando no poder os oprimidos para que novos atores possam fazer de novo a velha opressão, repetindo um velho filme com novos personagens.

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