Uma das coisas que mais valorizo em uma pessoa é a espontaneidade. É uma qualidade nata nossa, mas eliminada de nossas personalidades através da intromissão de adultos em nossa fase de infância. Já no final da infância, senão totalmente, já teríamos perdido grande parte da espontaneidade.
Não dá para ser espontâneo diante dos interesses de outras pessoas. O ser humano é um ser social e a sobrevivência humana exige contato com outras pessoas. Quem se isola vira morador de rua vagando de um lugar a outro. Sem dinheiro e muito menos dignidade. Por isso se a espontaneidade atrapalha o contato com os outros e consequentemente a satisfação de necessidades, é melhor dispensá-la.
Isso é o que difere aquilo que fazemos por gosto e o que fazemos por necessidade. Para ganhar o dinheiro necessário à sobrevivência, é muito comum fazermos o que detestamos em troca de um benefício que nos garantirá não apenas a sobrevivência como nos dará conforto.
Quando a arte se transformou em profissão ou fonte de renda, estava dada a contagem regressiva para o fim de sua maior prerrogativa: a espontaneidade. Para mim, a espontaneidade é a principal característica da arte e sem ela, a arte não é arte. É comércio. Se a arte vira emprego, ela perde seu caráter de espontaneidade. É mera fonte de renda e nada mais.
Claro que não vamos criminalizar aqueles que fazem música por dinheiro. Mas é nítido que o dinheiro ajuda muito a cair a qualidade de quaisquer obras artísticas, incluindo as músicas. Sendo um emprego de ganho relativamente fácil, a profissão atrai muita gente sem vocação para tal. É uma idiotice achar que todo mundo pode ser artista, uma função que exige talento para isso.
Desde que a música virou emprego, muitos empresário gananciosos trataram não somente de corromper artistas a fazerem o que o mercado deseja (que nem sempre é o que o povo quer - o povo quer qualquer coisa que toca nos rádios, por causa da lei do menor esforço - lazer não é para ser procurado) mas também de criar armações que já nasçam fazendo os hits do momento.
Isso interfere decididamente na queda de qualidade musical. Mas para que isso não pareça queda de qualidade é preciso criar o mito de que "o que faz uma música ser boa é o gosto e sua popularidade". Crescemos acreditando que música boa é a que todos gostam.
Paradas de Sucesso como "atestados de qualidade" musical
Por isso que as paradas de sucesso ainda servem como "atestados de qualidade" para a música e muita gente defende seus ídolos baseados na tese de que "o cara é bom porque atrai muita gente". Tolice. A qualidade da música deveria estar na música em si não em fatores agregados.
Claro que mesmo dentro da chamada música comercial, há coisas bem feitas. Mas são músicas feitas como divertimento, sem pretensões artísticas. Não é arte e sim entretenimento. As pessoas ainda não aprenderam a diferir arte, cultura e entretenimento, três palavras com significados muito diferentes. O que favorece a confusão que coloca a música comercial e a música alternativa em pé de igualdade.
Para piorar, a música comercial acabou contaminando as mentes das pessoas que já aparecem pseudo-alternativos que fazem, sem interferência de gravadoras e empresários, o mesmo tipo de música comercial que estes gostariam que fosse feito. Aprendemos a ouvir música com a mídia corporativa e ela nos ensinou que a música comercial é a melhor, por ser mais acessível. Fazer o quê?
Está muito difícil separar comercio e arte. Enquanto isso, a qualidade musical vai caindo cada vez mais, graças a um monte de gente disposta a transformar arte em lucro financeiro e se trancafiar isolados em enormes mansões, após enganar multidões que pensavam que o hit do momento nasceu de forma inspirada em um belo dia ensolarado, diante de uma bela paisagem, como faziam os grandes poetas que não existem mais.

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