sexta-feira, 23 de agosto de 2024

De que adianta fazer música "independente" igualzinha a música comercial?

Infelizmente, o comercialismo na música acabou contaminando muitas mentes há décadas. Hoje ninguém mais sabe diferenciar música comercial da não comercial e muitos acreditam que profissionais mercenários como Justin Bieber e Britney Spears fazem música por vocação e são os verdadeiros "poetas" atuais. 

Desde que as gravadoras surgiram, no final do século XIX, a carreira musical se tornou uma fonte de renda, ou melhor, uma profissão, um emprego. Pessoas que gostariam de ganhar mais dinheiro com menos esforço, preferiram cantarolar para arrumar alguns trocados, mesmo sem ter talento e vocação para isso. 

Pessoas que, por exemplo, dariam excelentes engenheiros preferiram seguir carreiras de cantores ruins. Como perceberam que ganharam muito dinheiro e admiração popular do que se estivessem fazendo cálculos com réguas na mão, lá estão eles e suas musiquinhas irritantes, mesmo com alguma voz agradável que não consegue disfarçar a ruindade da musica e muito menos esconder a falta de espontaneidade.

Independentes educados pelo mainstream mercadológico

Agora, no século XXI, com a internet e o barateamento de recursos que possibilita com que pessoas comuns possam gravar suas músicas com a melhor qualidade auditiva (mas nem sempre com boa qualidade artística), parece favorecer a ampliação do chamado "Do It Yourself" (D.I.Y), base da cultura alternativa e da musica independente, onde o artista passaria a cuidar ele mesmo de sua carreira. 

Só que fomos musicalmente educados pelos meios de comunicação. E os meios de comunicação priorizaram a música comercial. Fomos estimulados a ouvir músicas de artistas de proveta fabricados por gravadoras e produtoras, cantando músicas padronizadas com arranjos fracos e letras fúteis, em geral sobre festas, danças ou vida amorosa.

"Educados" em assimilar a musica comercial como único tipo de música que nos chega aos ouvidos, acabamos por desconhecer a verdadeira música espontânea, o que faz com que a nossa noção de espontaneidade musical seja justamente a música não-espontânea. Para ser mais claro: aprendemos que a verdadeira música é essa daí, que ouvimos com exaustão nas rádios e televisões.

O resultado disso é o aparecimento de intérpretes que apesar do discurso militante em prol da espontaneidade musical, acabam oferecendo o mais-do-mesmo de grande gravadoras, já que em seu meio profissional/social acabou assimilando conceitos de música relacionados com o que o mercado de grades empresas de entretenimento sempre difundiu. Kira Kosarin, cuja capa de seu álbum musical ilustra esta postagem, é um exemplo deste tipo de intérprete. 

Recentemente, Victoria Justice também celebrou a "liberdade" de faz música "independente" , mas igualzinha a que é feita pelas gravadoras e produtoras multinacionais. Curiosamente, a gravadora que contratou Justice pertence a mesma organização que comanda o Grammy, cheia de grandes magnatas da indústria fonográfica. Independente? Sei não.

Vinculo indireto com o que é produzido pelas gravadoras

Agora, o que esperar de alguém, acostumado a ouvir músicas nas rádios, resolve por conta própria fazer a sua carreira musical, mas tendo como embasamento teórico a mesma musica comercial que finge rejeitar? Como esperar que alguém faça algo diferente de, por exemplo, Michael Jackson (para mim o símbolo máximo do comercialismo musical, embora o senso comum o classifique de "pura arte") se este alguém praticamente só ouviu o cantor consagrado por Billie Jean?

Esperamos que as produções independentes ofereçam algo realmente diferente daquilo que está no mainstream. Independente significa alternativo. E alternativo significa opção. Não dá para ser alternativo oferecendo a mesma opção que o mainstream oferece.

Esses novos interpretes "independentes", ao oferecerem o mesmo arros-feijão-bife que estamos cansados de comer, acabam por se tornar hipócritas. Sinal de que não apenas esses intérpretes devem romper com gravadoras e produtores, mas também com o que aprenderam durante décadas sobre o que é "arte" e "cultura". 

Na prática, esses intérpretes "independentes" continuam vinculados, de forma indireta a empresários, gravadoras e produtoras, pois assimilam como ouvintes aquilo que é produzido com objetivos comerciais. Não dá para ser de fato independente tendo como bagagem verdadeiros produtos mercadológicos, músicas tratadas como se fossem um tomate transgênico vendido no supermercado.

Vamos continuar esperando algo diferente e mais consistente vindo de quem resolve fazer música por conta própria, sem o pitaco de empresários, gravadoras e produtoras. Que existe música realmente espontânea, existe. Basta ela, que se esconde por falta de oportunidades de divulgação, aparecer.

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