O falecimento do apresentador, até por sua imensa popularidade, teve uma gigantesca repercussão, com manifestações de fanática comoção. Mesmo estando o empresário quase aposentado como apresentador, sem aparecer muito em seus programas, entregues a outros apresentadores, além de ter quase 100 anos de idade, muita gente não acreditou que ele fosse morrer. Como se fosse estranho alguém morrer com mais de 90 anos de idade.
Convém lembrar que segundo o machismo estrutural, homens nunca envelhecem, e mesmo morrendo em idade elevada, a morte não é facilmente aceita. Essa não aceitação causou uma comoção que, mesmo esperada, foi muito maior do que se pensava. Parecia que morreu um benfeitor.
Mas esta comoção, boa parte gerada pela memória afetiva de um apresentador que entreteu milhões de brasileiros no domingo, sendo o grande responsável pelo divertimento no dia oficial do divertimento, que é o domingo, fechou os olhos e ouvidos dos fãs que preferiram ignorar ou até mesmo negar fatos escabrosos em que Sílvio Santos estava envolvido. Fatos reais, infelizmente.
O lado Escuro da Lua
Sílvio Santos teve vários episódios reprováveis em sua trajetória. Já era estranho um reles camelô se tornar magnata de uma forma relativamente rápida. Eu, que entendo de Administração, confirmo que isto é impossível. Para se enriquecer rápido, somente existem três formas, roubando, ganhando na loteria ou através de favorecimento alheio. Parece que a terceira alternativa soa real.
Santos foi bastante favorecido pela Ditadura Militar. Não por acaso, criou um quadro em seu programa chamado de Semana do Presidente, uma manifestação de bajulação disfarçada de informe jornalístico. Graças a esta bajulação, Santos ganhou facilmente uma concessão de televisão, a TV Studios, mais tarde batizada de Sistema Brasileiro de Televisão.
Outra coisa negativa foi a deterioração cultural através da valorização de artistas bregas, que eram quase exclusivamente divulgados nos programas de seu canal. Gretchen, Ovelha, Nahim, Gengis Khan, revelações do canal, além de bregas já existentes como Odair José, Doutor Silvana, Chitãozinho e Xororó,e Abysintho, somado a avalanche de boy-bands como Dominó, Tremendo e o próprio Menudo, além das suas versões femininas como Harmony Cats, Melindrosas e Meia Soquete. Todos ridículos.
Aos poucos, Sílvio foi soterrando a música de qualidade existente nos anos 70, cuja popularidade foi caindo na mesma proporção que o nível intelectual e sendo substituída pelo festival de breguices, com artistas medíocres, com obras simplórias e explícita precaridade musical. Se a cultura de hoje está uma porcaria, Sílvio Santos, mesmo não sendo o criador da breguice, foi o seu principal difusor.
Sílvio também é acusado de não pagar os prêmios anunciados em seus programas. Realmente eu desconfiava de ver pessoas ganhando cerca de 100.000 reais facilmente em seus programas, recebendo na verdade, um vale compras para as lojas do Baú da Felicidade, de propriedade do apresentador. Lojas bem ruins em seu acervo de produtos. Como a Havan, apoiada por Sílvio, é hoje.
Não há evidências se as premiações eram falsas ou verdadeiras, mas para fãs do apresentador, elas eram legítimas, a ponto de transformá-lo em uma espécie de benfeitor, amigo dos pobres.
Mas a associação com a ditadura e posteriormente ao bolsonarismo, foi realmente a grande mancha de sua carreira, pois a má fama do ex-capitão do Exército ajudava a destruir os mitos de bondade e de simpatia do sorridente apresentador, que nos bastidores, era uma pessoa difícil, quase autoritária.
Santos só no nome
Quando pessoas aparecem para lembrar dos defeitos de Sílvio Santos, os fãs se agitam feito abelhas quando a colmeia é sacudida. O ator Pedro Cardoso e o ex-diretor da Rede Globo, Luís Erlanger, falaram verdades sobre o apresentador-empresário. Nada que nunca tenha sido comentado pela sociedade. Erlanger disse que Sílvio era "Santos" somente no nome.
Mas ambos foram esculachados pelos fãs de Sílvio, como se o homem do Baú fosse totalmente despido de qualquer defeitos, como se o apresentador fosse uma espécie de divindade viva, da mesma forma que o charlatão de Uberaba, um vigarista que recebeu do canal o título de "Brasileiro do Século", numa premiação muito mais do que controversa. Tendendiosa até.
Mesmo sendo um apresentador de qualidade inegável, Sílvio Santos guarda também coisas bem ruins em sua trajetória. Temos que ser objetivos e admitir que, se aqui ninguém é perfeito, porque ele seria? Mas o fanatismo de um povo, carente de heróis e infantil a ponto de sair a procura de alguém que lhe sirva de babá, faz com que pessoas muito queridas sejam facilmente canonizadas quando morrem.

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