Estamos acostumados a dividir a sociedade em "homens bons" e "homens maus". As obras de ficção sempre gostaram de enfatizar a existência de "heróis" e vilões", através de perfis estereotipados. As religiões, também baseadas em obras de ficção, mas consagradas como reguladoras morais da humanidade transformaram este conceito em lei.
Com base nisso tudo, os legisladores do senso comum bateram o martelo e decidiram: sim, a humanidade é dividida em "bons" e "maus". Os primeiro merecem o bem estar e a prosperidade (mesmo excessiva, às custas do prejuízo alheio) e os segundos merecem a punição mais rigorosa possível.
O conceito de bondade e maldade é muito subjetivo. Todos nós temos um pouco dos dois lados. Não há quem seja 100 bom nem 100 mau. Na verdade, não somos bons nem maus. Boas a más são as atitudes que tomamos e as circunstâncias é que definem que tipo de atitude utilizar.
Há momentos em que homens considerados bons cometem crueldades e homens considerados maus cometem atos de generosidade. Homens de bem capitalistas não vivem prejudicando as classes operárias em prol dos lucros gananciosos? O que dizer de traficantes que beneficiam moradores da favelas quando o poder público oficial dá as costas a esses moradores?
São somente dois exemplos, mas há uma infinidade de casos que colocam em cheque o conceito de "homem bom x homem mau". Há um motivo para que essa divisão social que impõe a rotulação entre "bons" e maus" seja adotada: confiabilidade social.
As pessoas gostam de ser rotuladas de boas porque atrai confiança e por consequência, benefícios. Seres humanos são seres sociais e muito dos benefícios que obtemos é por graças a sociabilidade. Sexo e dinheiro, por exemplo, são obtidos por meio de outras pessoas. Parecer bons aos outros é importante para que tornemos confiáveis e atraíssemos pessoas para nos beneficiar.
Por outro lado, ser mau afasta os outros e mesmo que o nosso instinto de sobrevivência e a ganância nos façam prejudicar os outros, fazemos de tudo para que não percamos o rótulo de "bons". Nada pior do que ser rotulado pejorativamente, o que afastará quem poderá nos trazer benefícios de quaisquer tipos.
Escondemos atitudes más para atrair confiança. Quando não conseguimos esconder, mudamos conceitos para que más atitudes pareçam boas. A Meritocracia, por exemplo, transformou a ganância em algo positivo. Os ricos e prósperos podem querer ter tudo para si de forma tranquila, já que possuem uma justificativa pronta para validar a sua ganância.
Não raramente, atitudes que causam prejuízo alheio são justificadas como "atos de defesa" como se observa nos cacoetes ideológicos dos auto-rotulados "homens de bem", que se consideram pessoas bondosas mesmo praticando maldades. Isso comprova o caráter subjetivo e portanto duvidoso do costume de se dividir a humanidade em "bons" "maus".
Esqueçamos este conceito. Não existem pessoas "boas" e "más". Nunca existiu. Boas e más são as atitudes que tomamos. Toda pessoa de bem já prejudicou alguém, intencionalmente ou não.
Quando percebermos o erro de dividir a humanidade desta forma, diminuirão a ocorrência das más atitudes. Até porque muitas de nossas más atitudes tem origem neste conceito, já que gostamos de prejudicar aqueles que consideramos "más". Mesmo que estas sejam as melhores pessoas do mundo.

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