terça-feira, 13 de agosto de 2024

Prefiro uma canção "alienada" de um cantor de protesto do que uma música "de protesto" de um cantor alienado

Para muita gente acha que a qualidade musical está no tema das letras musicais. Acham que a música é boa quando fala letras belas ou intelectualizadas ou é ruim quando fala de sexo e violência ou de temas banais. Nada disso. 

A qualidade da música, além da melodia e da combinação dos arranjos instrumentais, está na maneira como o tema é colocado na letra e nas intenções do compositor que a cria, mantendo a coerência com a personalidade de seu criador. Mesmo quando a música é instrumental, o próprio titulo, comparado a melodia da música serve para dar o tema que irá ilustrá-la.

Mas uma música não precisa ser intelectualizada para ser bem feita. Na verdade, quem tem que ser intelectualizado é seu criador, não a música criada. Um bom exemplo disso é o saudoso compositor João de Barro, conhecido também como Braguinha. Braguinha era capaz de escrever letras inteligentemente criativas sobre temas considerados banais. Muitas de suas marchinhas eram muito bem escritas e de beleza inquestionável. Mas se levarmos em conta o critério equivocado de qualificar uma letra pelo tema, Braguinha seria considerado "alienado". Não era, enriquecendo a cultura brasileira com suas obres de temas ingênuos mais muito bem elaborados.

Música de protesto sem protesto

Na contramão disso, há muitos cantores que entram em ondas de "protesto" na tentativa de parecerem "conscientizados", mas sem ter o engajamento e o nível de informação e discernimento necessários para uma verdadeira mensagem de protesto. 

No Brasil mesmo, quando a Legião Urbana foi fazer sucesso, um monte de oportunistas se meteu a fazer música de "protesto" de qualidade risível como "Tô P da Vida", aquele axé do "Chega de bobeira, já virou sacanagem" (que nem vou me preocupar em pesquisar) e até a Xuxa, com a alienada e estereotipada "Boas Notícias" e muitas outras tolices, felizmente esquecidas.

Outro exemplo: lá fora, o cantor Michael Jackson, considerado pelos brasileiros como um "deus superior da arte" por pura credulidade (era o mais competente dos hit-makers, é verdade, mais por estar cercado por gênios do que por ser um "gênio"),  também tentou criar a sua "canção de protesto", They don't care about us. Para quem sabe o que é arte e protesto e conhece a reputação apolítica do finado intérprete, além de entender inglês, percebe muito bem que é uma cançãozinha bem estereotipada, pedante, um verdadeiro forçamento de barra para ser considerado "rebelde" sem ser de fato. Somente os ingênuos gostaram. O problema é que esses ingênuos estão em grande quantidade, sobretudo no Brasil, onde Jackson tem os súditos mais fanáticos.

Cantor de protesto lançou álbum "alienado"

O que me fez escrever esta postagem é na verdade uma aventura relaxante e descontraída de um compositor normalmente envolvido em letras de consciência social: Cat Stevens. Estava escrevendo sobre a apresentação que ele, hoje conhecido com o nome de Yusuf, fará no Brasil e me lembrei  de escrever sobre isto, ou melhor sobre Izitso.

Stevens, pouco antes de se retirar da carreira para seguir o ativismo social após se converter ao islamismo, decidiu fazer um disco descontraído, Izitso (sei lá o que isso significa!), quase eletrônico. Vários músicos de folk tentaram fazer aventuras eletrônicas, como Neil Young (álbum Trans, 1980) e Stevens também fez o seu.

Há uma música instrumental no álbum chamada Was dog a Doughnut, algo como "Um cachorro foi um tipo de biscoito-rosquinha?", o que poderia ser considerado bastante alienado. O ritmo de uma pseudo rumba tocada como se fosse fundo musical de videogame jogava mais lenha nessa impressão errada. Mas a música é divertida e apresentou ao mundo uma faceta diferente de Stevens, como uma forma descontraída de despedida, antes de se retirar da música (para voltar mais de três décadas depois).

Para mim, é plausível que um cantor de protesto ou de obras intelectualizadas escreva e grave uma obra que poderia ser "alienada", já que inteligentes podem "regredir" quando quiserem, pois os momentos de ingênua descontração fazem parte de sua experiência intelectual. Ridículo é ver nomes em franco processo de aprendizado criarem obras sobre o que não entendem, por ainda não terem chegado a um nível intelectual adequado a criações mais avançadas.

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