Uma coisa que noto nos esquerdistas brasileiros é a incapacidade de compreender o drama das pessoas solitárias ou as que preferem uma vida tranquila, longe da badalação social onde multidões se encontram para beber, gritar e pular.
Para muitos esquerdistas, solitários são pessoas ruins da cabeça, doentes do pé e que tem uma quedinha pela extrema-direita, visto a coincidente situação social de muitos jovens terroristas americanos e europeus. Como se ser solitário e sádico fossem sinônimos.
Claro que o ser humano, sendo um ser social, estaria em melhores condições se estivesse acompanhado com uma vida social mais constante e estável. Mas isso é algo complicado, pois nunca esqueçamos que a humanidade ainda está em modo beta, ou seja, em aperfeiçoamento, e ainda bem imatura para estabelecer as relações com os outros.
As crises e a nossa incapacidade de superá-las contribuem muito para que as relações sejam cada vez mais difíceis. Nunca foi tão fácil criar inimizades. Como acreditar que os relacionamentos, incluindo os conjugais, quase sempre movidos por interesses, admitam ou não, terão o sucesso garantido em uma realidade tão conflituante?
Esquerdistas casados não entendem a solidão
Fiz essa introdução para alertar que os esquerdistas ou aqueles que se assumem como tais, estão criando uma imagem negativa das pessoas solitárias ou reservando a elas formas paliativas de tentar - eu disse tentar - sair da solidão que nunca se resolve.
Apesar de se assumirem ideologicamente altruístas, os esquerdistas demonstram total incapacidade de entender quem se situa numa solidão crônica, com poucos amigos e vida conjugal zero. Mas há um motivo: a maioria esmagadora dos esquerdistas são de pessoas casadas ou que estão em um relacionamento estável, fruto de uma vida social movimentada e cheia de amizades.
Claro que o fato dos esquerdistas brasileiros serem de classe média, fazendo parte de uma pequena burguesia, contribui muito para facilitar a vida social e amorosa. Pequenos burgueses pertencem a uma classe que cria meios - para quem se propõe a aderir aos esquemas impostos pelas regras sociais: e a classe média é entusiasmadamente obediente - para favorecer a fuga da solidão.
Apesar de assumir uma postura altruística nos assuntos relativos a política e economia, as esquerdas brasileiras costumam ser conservadoras quando o assunto envolve artes, cultura e vida social. O que favorece uma certa concordância com o ponto de vista tradicional da classe média direitista, pois contradição ou não, os esquerdistas brasileiros são acima de tudo brasileiros de classe média e levaram muito do repertório ideológico desta classe com eles.
Entre essas valores está o de manter uma vida social estável e movimentada, seguindo rigorosamente os rituais e costumes impostos pela classe média tradicional, já que para os esquerdistas brasileiros não há interesse em mudar as regras sociais, tendo como única diferença da classe média direitista o desejo de ver mais gente usufruindo das festas do grand mondé. Mas exatamente da mesma forma que os direitistas da mesma class usufruem.
Isso tudo inclui a vida conjugal, pois todo mundo é careca de saber que uma vida social movimentada facilita e muito a conquista da pessoa desejada. Os esquerdistas se sentem muito felizes em suas vidas de afeto mútuo e confortável que se esquecem de quem não tem a mesma sorte, até por não poder ou não querer aderir ao sistema social imposto pelo status quo.
Solução preguiçosa
A incompreensão dos esquerdistas brasileiros com a situação dos solitários, oferece duas opções: (1) a de fazer chacota com os solitários, rotulando-os de fracassados ou até de "fascistas"; (2) a de criar uma rede social só para esquerdistas, o tal de "PTinder", igualzinho às outras que já existem, apenas com a diferença de - supostamente - não haver bolsonaristas enchendo o saco.
A gozação em cima dos solitários é algo ofensivo e contradiz o espírito altruísta assumido pelas esquerdas. É algo humilhante que ultrapassa os níveis do bullying e mostra uma incapacidade total de se colocar no lugar do outro e se imaginar em uma situação triste que é real para as pessoas que não conseguem ter um ombro amigo para colocar a cabeça e chorar.
Já a iniciativa de criar o PTinder soa preguiçosa, pois é claro que optaram pelo caminho mais fácil de solucionar o problema da solidão dentro das esquerdas. Afinal, não precisa entender de solidão para criar o PTinder: basta entender de informática. Até porque no fundo, os aplicativos e redes sociais de namoro nunca passaram de meras brincadeiras, meros jogos, como quaisquer jogos eletrônicos.
Mudar as regras sociais seria a melhor solução
O caminho para resolver a situação desagradável das pessoas solitárias parece muito difícil para quem se situa na zona de conforto de aceitar as convenções sociais como se elas fossem justas e boas. Seria o de mudar as regras sociais: mudar lugares de paquera e sociabilização, desobrigar as pessoas de consumir bebidas alcoólicas e entender que existe uma diversidade de situações, gostos, ideias, pessoas e que nada deve seguir um padrão.
Se no mundo não há um padrão específico de pessoas e de situações, imagine no Brasil, um país cheio de diversidade. Estranho as esquerdas não se lembrarem disto. Se lembrassem, lutariam para que assim como desejam na política e na economia, a vida social fosse bem mais democrática, com variedade de locais e condições para as pessoas se sociabilizarem, fugindo da rígida ditadura dos barzinhos, ainda o "templo sagrado" da sociabilização para muita gente.
Mas isso vai demorar muito para ocorrer. provavelmente eu não estarei vivo para ver isso se resolver de forma justa e democrática. As esquerdas já admitem que conservam certos valores que elas consideram positivos - mesmo que gere danos aos outros - e mudar os costumes sociais não está em sua pauta de transformações.
Triste saber isso. Muitas pessoas continuarão solitárias, principalmente os esquerdistas que não conseguem resolver sua situação social, escolhendo por serem humilhadas com rótulos ofensivos ou caindo na ilusão das redes sociais cheias de ciladas e promessas vazias.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.