ENCORPANDO A VITAMINA: Anos atrás, em 2011, o jornal Folha de São Paulo, um dos responsáveis pelo Golpe de 2016, decretou a morte da "indústria cultural", que é um dos pilares do Capitalismo na área do entretenimento. Um ponto de vista estranhamente corroborado pela esquerda brasileira, que acha que um bando de armações musicais se atrelam aos interesses de poderosos magnatas do entretenimento por conta própria só para se comunicar com a plateia e não para ganhar (muito) dinheiro com (pouco) esforço.
É estranho ver este ponto de vista quando o Capitalismo cada vez age para se manter de pé, mesmo diante de crises sucessivas, justamente para preservar objetivos gananciosos, a ponto de derrubar governos que trabalhem em medidas econômicas que favorecem a população para colocar outros que destroem tudo para satisfazer os interesses particulares de um punhado de magnatas.
Para mim, a industria cultural está cada vez mais forte e a cultura espontêna como conhecíamos não existe mais. A carreira cultural virou, para muitos, uma excelente fonte de renda. E mais: em tempos de crise virou a alternativa para muita gente ganhar o dinheiro que não consegua ganhar de outra forma.
Nunca soltar os gogós e sacudir os esqueletos foi tão lucrativo, a ponto de reduzir a qualidade da cultura mundial, usando o pretexto de "expressão natural de um povo" para enriquecer mais e mais às custas de muita enganação. Até porque inventar que a cultura continua espontânea e poética é uma boa propaganda que atrai ingênuos a gastar fortunas por qualquer coisa que as entretenha.
Leiam o texto que eu escrevi em 2011 para um site extinto.
A Nova Indústria Cultural
Marcelo Pereira, Planeta Laranja, 11/01/11
Recentemente, a Folha de São Paulo (sempre ela!) decretou a morte da indústria cultural e definiu a música de mercado quer domina o nosso país de "cultura independente", como se em suas características não possuísse o caráter hitmaker que tanto infestou a nossa cultura de uns tempos pra cá.
Segundo o texto, a autonomia que muitos intérpretes do que eu chamo de cultura-de-mercado, serve como prova de espontaneidade artística e alta qualidade musical. Ou a Folha está enganada ou está querendo enganar.
Para começo de conversa, vivemos em outros tempos. Com a queda do muro de Berlin, em 1989, os grandes grupos empresariais, nas pessoas de seus donos, se animaram com o fortalecimento do Capitalismo e decidiram "privatizar" tudo. Todas as coisas passaram a ser valorizadas no âmbito financeiro, mesmo não assumidos. A burguesia passou a controlar tudo, numa invisível ditadura do capital, sem violência, sem truculência, sem sangue derramado, mas com muita miséria, exclusão e injustiças.
E foi nesse cenário que se tornou evidente uma "cultura" de mercado em nosso país. O que os intelectuais chamam de cultura de massa, com fins que se limitam a diversão pura e a geração de lucro financeiro. A cultura de massa não possui compromisso artístico e suas características se baseiam em uma padronização imposta por regras que visem o lucro garantido. Se necessário, os gestores da cultura de massa lançam mão de mentiras para que com a ingênua ilusão tipicamente pueril, possam garantir ainda mais as vendagens e perpetuar os lucros, já que colocando em nomes descartáveis o vernis de "arte" e "cultura", possam fazê-los permanecer por mais tempo no imaginário popular, eternizando os seus lucros.
Na verdade, não foi a indústria cultural que acabou. pelo contrário: ela se tornou hegemônica, oligárquica: está em quase tudo. O dinheiro se tornou a principal (e muitas vezes a única) fonte de inspiração para os pretensos artistas.
O que mudou é que, com o enfraquecimento das mega-empresas, os próprios "artistas" e pequenas empresas passaram a controlar o próprio negócio que está por trás (e não visível) de cultura-de-mercado que seduz as massas. Agora é a própria celebridade que se auto-empresaria, gerindo os seus próprios lucros, sem atravessadores. Onde a Folha via uma dissociação da cultura com o dinheiro, os fatos mostravam lucros ainda maiores, já que com a autonomia, existe menos gente para receber o gigantesco lucro que não para de crescer.
As características da cultura-de-mercado mostram que, do contrário que muita gente pensa, a arte não retomou a sua espontaneidade. Pelo contrário: mesmo sem algum acima para ditar ordens, a celebridade passa a acreditar por si só nas regras impostas pelo mercado. Segue espontaneamente o que não é espontâneo.
Para ser mais claro: transfere a espontaneidade que não existe em sua "arte" para a mentalidade mercantil, já que gerindo seus próprios negócios, essas celebridades, outrora ingênuas, passam a agir e pensar como verdadeiros empresários, focando toda a sua capacidade de produção para fins exclusivamente financeiros. Um artista ruim quase sempre é um excelente homem-de-negócio.
E a verdadeira cultura, onde se situa? Não situa. Ela não existe para as massas, ou tem presença bastante limitada. A verdadeira arte, sem o ilusionismo proposto pela cultura-de-mercado é muito chato para a maioria das pessoas. Ainda mais em um país com educação de péssima qualidade (que só poderá ser resolvida com o fim de inúmeros mitos ainda arraigados em nossa sociedade) e com inúmeras crenças e hábitos que ainda insistem em permanecer no cotidiano da população. A verdadeira cultura segue, mas escondida de todos, estando ao acesso apenas de pequenos grupos.
A verdadeira arte é mais inteligente, criativa, não se submete a regras de mercado. Não é idiota, ridicularizante (como é tradicionalmente a cultura-de-mercado), patética. Não manipula as massas e não se prende a mentiras e a rótulos pomposos para se consagrar gratuitamente (o fato da cultura-de-mercado se impor como a "nova cultura oficial" de nosso país é um bom exemplo disso).
A verdadeira arte está morta, já que os empregos gerados pela "cultura" exigem menos esforço, fazendo com que muita gente preguiçosa preferisse fazer blem-blem em violões e sorrir para as câmeras do que, por exemplo, pegar em uma enxada. Pouco trabalho para muito salário. E se pago para se divertir.
Infelizmente todos os campos da cultura foram contaminados pela mentalidade mercantil. Cinema, Literatura, Música, Televisão, etc.. Todos passaram a ser "banqueiros posando de artistas".
Recebi um comentário há muito tempo de alguém que definia Tropa de Elite como um filme "de arte". Como, se o próprio diretor, José Padilha, afirmou várias vezes que odeia filmes de arte e que segue direitinho as regras impostas pelo mercado cinematográfico? Padilha defende um cinema cada vez menos intelectualizado e exclusivamente dedicado à diversão.
Assisti a uma palestra com o diretor de Nosso Lar, Wagner de Assis, afirmando que fez o filme para ganhar dinheiro, mesmo se utilizando de um enredo que estimule o altruísmo e a abnegação.
Ambos os diretores são completamente desconhecidos para as massas e totalmente irrelevantes para a cinematografia brasileira, o que mostra que o "cinema de produtor" (braço cinematográfico da indústria cultural e excessivamente hegemônico nos EUA, onde o produtor é a principal peça-chave da "cultura", subestimando o criador da obra), já chegou ao Brasil. Detalhe: ambos os filmes foram produzidos pela Globo Filmes, que está estabilizando o cinema comercial em nosso país.
Portanto, infelizmente, a nossa indústria cultural não só está viva como está forte e descentralizada. Essa descentralização, caracterizada pela autonomia administrativa de seus principais expoentes, transformando artistas sem vocação em empresários poderosos, é a renovação do novo capitalismo de entretenimento, fortalecendo os laços mercantis da "cultura" dominante.
Esta "cultura" dominante acaba iludindo massas, fazendo-as gastarem o seu escasso salário com verdadeiros supérfluos que nada acrescentam a vida e ao caráter de nossa carente população, que age como crianças diante as maravilhas impostas por um mercado cada vez mais ganancioso e mentiroso, que quer se beneficiar se associando a valores nobres que eles não conseguem - e nem querem - por em prática.
Se preciso for, para garantir ainda mais os lucros, será permitido que se cuspa na própria mídia que o divulga. Muitos intérpretes da indústria cultural se auto-rotulam "fora da mídia", se esquecendo que até mesmo o poder midiático foi descentralizado, favorecendo pequenos meios de comunicação, que no entanto continuam agindo como os grandes meios. Mas, um cuspezinho se limpa depois com água e sabão, mas grandes prejuízos financeiros e a imagem que se tem diante do público, são muito difíceis de se consertar.
A verdadeira arte segue silenciosa, fora dos holofotes das TVs e Internet totalmente desconhecida do ingênuo imaginário popular de uma nação sem auto-estima e totalmente iludida com as promessas que autoridades, mídia, empresários e celebridades vivem a espalhar por aí.
"Cultura Fraca gera povo fraco" dizia David Tame. Os privilegiados de nosso país têm muito orgulho dos "carneirinhos" que possuem em seu "rebanho".
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