Com a recente morte de Moraes Moreira, de enfarte, na semana passada, o álbum Acabou Chorare (Som Livre), gravado em 1972 pelo grupo que Moreira fazia parte, os Novos Baianos, voltou à discussão. Considerado pela crítica um dos melhores álbuns já gravados no Brasil (o melhor segundo alguns), o álbum realmente merece o título que possui.
Para começar, é um álbum moderno demais para a época. Eu já conhecia algumas músicas, desde criança. Quando eu ouvi o álbum todo pela primeira vez, poucos anos atrás, foi impossível para mim de não lembrar o primeiro álbum dos Tribalistas (Phonomotor/EMI).
O grupo formado por Marisa Monte, Carlinhos Brown e o ex-Titãs Arnaldo Antunes, lançou um álbum espetacular. A impressão que se tem é que os Tribalistas quiseram fazer uma espécie de Acabou Chorare II. Na minha opinião, o primeiro álbum dos Tribalistas é o melhor álbum brasileiro lançado desde 1990 (o álbum é de 2002), junto com o álbum Tropicalia 2 (Mercury/Universal), gravado em 1993 por Gil & Caetano e o álbum Carioca (Biscoito Fino), que Chico Buarque lançou em 2006.
Voltemos ao álbum de 1972. Realmente o álbum faz jus ao título. É um álbum ousado e atemporal. Vejo uma modernidade ainda não compreendida nele. Parece que ainda vai chegar o tempo que o álbum vai ser devidamente reconhecido. É um disco perfeito. O único defeito é a sua curta duração, pois você já se empolga com a leitura modernizada do clássico Brasil Pandeiro, escrita por Assis Valente em 1940 e pouco depois de encerrar o álbum fica o gostinho de quero mais.
O álbum, com instrumentais arranjados por Pepeu Gomes e Moraes Moreira, é cheio de ousadias. Se a gravação do clássico do baiano Valente tirou o traço de antiquado da canção, temos no variadíssimo cardápio sonoro do álbum várias músicas seminais que ainda soam bem atualizadas quase 50 anos depois. Como se o álbum tivesse feito para ser ouvido uns 10.000 anos depois.
Temos a belíssima Preta Pretinha e sua estória de conquista fracassada passada em Niterói (cidade aonde ainda moro e onde nasceu um dos integrantes do grupo, Baby Consuelo) na letra e com a sua melodia interessante que mistura o som de Dodô & Osmar com um tipo de modinha.
É o maior sucesso do disco e marcou a carreira de Moraes Moreira, que cantou inúmeras vezes em sua carreira solo. Lembrando que Preta Pretinha são baianos (+ uma niteroiense) cantando sobre Niterói, e isso tem muito a ver comigo, já que estou com planos de sair de Niterói para voltar a morar em Salvador, plano interrompido pelo tal do coronga.
Àlbum para ouvir sem pular faixa
Mas o álbum tem mais ousadias, numa mistura que resultou num coquetel homogêneo entre várias vertentes do rock da época e diversos gêneros brasileiros, sobretudo do Rio de Janeiro e da Bahia. É um álbum para ouvir sem pular faixas, pois além da genialidade e inteligência, há a alegria em todas as faixas, com ritmos, harmonias e arranjos que combinados, soam contagiantes.
A faixa Tinindo Trincando, com vocal de Baby, segue estilo meio parecido com que Gal Costa fez no início de carreira, com arranjos que lembram um Pink Floyd de Syd Barrett mais carnavalesco. Aliás é impossível não se lembrar da Tropicalia ouvindo esta faixa, considerando que os Novos baianos seriam continuadores tardios do movimento dundado por Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Swing do Campo Grande (nome tanto de um bairro do Rio de Janeiro, como o de um bairro em Salvador, com características muito diferentes), que destaca pela gíria "viro Moita" para "passar despercebido". A música é bem influenciada por João Gilberto, uma espécie de padrinho ou paraninfo do grupo de hippies malucos que gravou o álbum, só que numa versão mais empolgada, sem a calma típica do bossanovista.
Tem a faixa título com letra sem pé nem cabeça, o que sugere que foi composta a base de drogas alucinógenas, com um estilo que lembra as músicas mais lentas dos Tribalistas (a letra parece ter sido escrita por Arnaldo Antunes, especialista em letras meio doidas). Mais influência de João Gilberto, desta vez reconstituindo o clima de calma matinal do bossa novista.
Mistério do Planeta lembra as músicas que Gilberto Gil gravava nos anos 60 e termina com solo de guitarra, combinado com forte bateria, em arranjo que lembra o rock progressivo dominante na época. Para mim, a mais ousada do álbum, além do rock-baião instrumental Um Bilhete para Didi.
A Menina Dança, cantada por Baby, serviu para criar o estilo que marcaria a carreira solo da cantora niteroiense, que mudou seu nome de "guerra" para Baby do Brasil e é evangélica, e por causa disso vive, infelizmente, renegando seu passado. A influência do início de carreira de Gal Costa é ainda mais explicita nesta faixa, embora a voz de Baby seja muito diferente de sua inspiradora de estilo.
O álbum tem o samba carioquizado Besta é Tú e uma reprise de Preta Pretinha, em uma versão mais curta. Creio que a faixa de encerramento seria uma forma de tornar Preta Pretinha mais adequada a tocara nas rádios, já que a primeira versão tem quase sete minutos, considerada longa demais. s|e bem que hoje, quando as rádios tocam a música, já tocam em sua versão mais longa, bem mais bonita.
E como eu disse, ao encerrar o álbum, fica um gosto de quero mais. Uma vontade de ouvir de novo. Para escrever este texto, ouvi duas vezes o álbum, que apesar da banda ter sido formada por um bando de hippies bagunceiros, foi muito bem produzido, arranjado e realmente mereceu o título de obra prima definitiva da música brasileira, tida por muitos como o melhor álbum da música brasileira.
Apesar de termos inúmeras obras primas na historiografia musical brasileira, ouvindo o álbum, é impossível de discordar de muitos críticos. Acabou Chorare é, senão o melhor, um dos melhores álbuns, não somente do Brasil, mas também do mundo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.