Perdi a confiança nos seres humanos. Previsto como era de grandes avanços não somente tecnológicos como também humanitários, por futurólogos científicos e "profetas" místicos, o século XXI está decepcionando, não na tecnologia, mas na humanidade.
Parece que a tecnologia veio para estimular uma certa estagnação na humanidade. Continuamos com os mesmos defeitos de séculos atrás. Nada nos fez evoluir. Pelo contrário, parecemos cada vez piores. As lições que aprendemos nos séculos anteriores foram jogadas na incineradora, mas sequer suas cinzas sobraram.
Estamos mais burros e mais gananciosos. Queremos tudo para nós. O padrão de vida da classe média alta se tornou nosso parâmetro. Queremos todos ter um SUV, uma gata inteligente como esposa e um cachorrão como bicho de estimação, a cuidar de um grande quintal de uma casa cheia de cômodos.
Queremos ter um time de futebol para sermos simpáticos aos outros, louvar a um deus invisível que governa sozinho um universo imenso e encher a cara de álcool para nos sentirmos felizes. como verdadeiras crianças, ainda nos prendemos a ilusões, enquanto assistimos de braços cruzados, resmungando sem agir, a realidade se esfarelar.
Mas todos fingem estar fazendo alguma coisa. Todos fingem humildade dentro de suas vidas prósperas, onde não somente o necessário é satisfeito de forma abundante, como há espaço - e muita renda - para que supérfluos se tornem cada vez mais excessivos. Tudo aplaudido por uma multidão de miseráveis que mal tem o mínimo para se alimentar.
A hipocrisia da classe média, sempre querendo sair da história de forma heroica, sem mexer um único dedo para melhorar a realidade, contribui para que tudo permaneça como está, com problemas insolúveis que são resolvidos de forma paliativa. É só dar sopas aguadas, casacos e cobertores rasgados e cadernos riscados que tudo está resolvido. E tais "heróis" ainda exigem a canonização, o reconhecimento do heroísmo não praticado.
Todo mundo querendo posar de bondoso sem ser. Os direitistas se auto-rotulando de "homens de bem" sonhando com um "país bom". Os esquerdistas fazendo discursos longos e rebuscados sobre a necessidade de fazer algo pela sociedade e nada fazem. Apolíticos se auto-declarando humanistas e embarcando na primeira campanha solidária que aparece, também se fazer absolutamente nada.
Mas todos, sem exceção, querendo posar de bondosos. Parecer bondoso é muito bom para o prestígio social. Ninguém quer se aproximar de um malvado declarado. Mas ser bondoso de fato exige esforço e abnegação. Ser bondoso de verdade exige abrir mão da vida confortável de classe média alta que se tem. Trocar um SUV novo por um Fusca velho? Nem pensar!
Sinceramente, a hipocrisia contaminou quase todo mundo. Se tornou uma pandemia muito mais contagiosa que a Covid que nos surpreendeu neste 2020 que acabará distópico. A falsidade daqueles que fazem questão de serem tratados como bons sem ter feito um só benefício, no máximo dando paliativos para que se suportem problemas crônicos que nunca se resolvem, é impressionante.
Estou cada vez mais deprimido por viver diante de uma sociedade mentirosa que finge estar fazendo alguma coisa quando diante dos meus olhos assisto a um show de inércia que perpetua características mundanas que deveriam ter desaparecido muitas décadas atrás.
Eu não confio mais nas pessoas. Ninguém merece minha confiança. Se der para lutar, lutarei sozinho. Se alguém quiser me ajudar, aceito. Mas a esperança morreu e sou proibido de sonhar, de fazer planos. Vou vivendo e observando o andar dos acontecimentos. Se der para ser feliz, serei. Mas se não der, o que é mais provável, fazer o quê? É seguir andando. Só, mas andando...

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