Os ricos encontraram um modo de fingir que são contra as desigualdades sociais sem distribuir suas polpudas renda e bens: pegar para si a cultura supostamente dos guetos, favelas e periferias e "assimilá-las" como se com isso estivessem se "solidarizando" com os pobres.
Mas ultimamente, com a "cultura das ruas" já devidamente inserida entre os ricos jovens sobretudo dos EUA, do Japão e do Brasil, já ficou praticamente impossível esconder a hipocrisia que está por trás disso tudo. A sociedade não melhorou, a renda continua concentrada e os pobres além de não recuperarem a dignidade ainda tem que conviver crônicamente com os problemas tradicionais que nunca se encerram. Na verdade essa adesão dos ricos, sobretudo celebridades a "cultura das ruas" é uma farsa e tem objetivos cruéis por trás disso.
Pode ser uma forma de iludir os mais pobres, transformando o rico explorador em "alguém que a gente pode confiar e que poderá nos ajudar". Assim, o rico não fica com má imagem e poderá explorar à vontade, pois ele "não parece mau, pois está do nosso lado". Desta forma as injustiças são até mais suportadas pois a adesão dos ricos a uma cultura supostamente de pobres os torna simpáticos diante a massa necessitada.
"Cultura das Ruas" não é cultura legítima
Tem outra coisa: a chamada "Cultura das Ruas" na verdade é uma farsa. Não é a cultura legítima das classes pobres e sim um tipo de "cultura" que os ricos querem que os pobres curtam. Se pararmos para pensar e observarmos os detalhes mínimos, perceberemos que o que os ricos fazem em fingir que "são da periferia" é na verdade uma propaganda de um produto crido pelos ricos para os pobres consumirem. É uma forma de impedir a intelectualização do povo pobre. A burguesia sabe muito bem que a inteligência é uma poderosa arma nas cabeças de uma pessoa economicamente carente.
Os ricos querem que os pobres sejam ridículos e burros. Que não tenham classe nem elegância. Que tenham uma imagem negativa para que não possam afastar autoridades na hora da negociação. Ou acham possível que um pobre dançando os passos ridículos do "funk" possam ser levados a sério em um debate? Na melhor das hipóteses, a ideia é fazer com que os pobres sejam vistos como micos de realejo, bonitinhos enquanto estão apenas dançando, mas assustadores quando começam a reclamar.
Claro que há pobres inteligentes - e não são poucos! - que gostariam muito de não serem associados a formas ridículas e humilhantes de "cultura". Mas estes são isolados, escondidos dos holofotes ou mostrados como "exceções", como se estivesse "negando a sua essência natural". Normal mesmo é ver pobres fazendo o papel de ridículos na televisão ou nos palcos.
Cultura como forma de manipulação e imobilização
Com a derrubada do Muro de Berlin em 1989, a burguesia sentiu que o Capitalismo teria que ser fortalecido. Mas não fazia sentido usar os meios tradicionais de domínio. Descobriram que a manipulação cultural seria uma excelente forma de dominação, pois cortaria o mal pela raiz, impedindo as classes dominadas de se intelectualizar.Por isso, as gravadoras, produtoras e meios de comunicação foram orientadas e treinadas para criar formas de "cultura" que ajudassem a "esvaziar" os cérebros das pessoas e que lançasse mão da alienação como uma forma de imobilização, impedindo que o pobre tenha conhecimento da realidade. Sem o conhecimento da realidade, as classes dominadas ficariam na inércia cotidiana de aceitar as coisas como estão, permitindo que as elites abusem, explorem e excluam de forma pacífica.
E daí surgem coisas como o brega-popularesco no Brasil, o hip-hop nos EUA e o Jpop no Japão (só para citar alguns exemplos), que se esforçam ao máximo em desviar as classes dominadas da intelectualidade, fazendo-os pensar que dançando alegremente "estarão mudando o mundo". Mudando só se for para pior.
E a adesão dos ricos a formas deturpadas e alienadas de "cultura", alem de ser hipócrita, por não influir na conquista da dignidade do povo mais humilde, pode ser uma propaganda a legitimar estas formas mercantis e toscas de "cultura" na tentativa de legitimar formas que impeçam o pobre a pensar, a sentir e a contribuir pela melhoria do mundo.
Com isso a cultura se torna o processo mais bem sucedido de dominação que imobiliza classes inteiras, sem soltar um tiro e sem derramar uma única gota de sangue.

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