domingo, 6 de setembro de 2020

A contradição entre se casar e não pertencer a ninguém

O ser humano ainda está aprendendo a raciocinar. Por isso aceita com naturalidade uma série de contradições, situação onde a compreensão humana permite aceitar uma coisa como sendo e não sendo ao mesmo tempo. Uma dessas contradições é querer se casar e não pertencer a seu cônjuge, tendo o direito a uma vida social com uma boa quantidade de amigos.

A explicação para o fato das pessoas fazerem questão de contraírem matrimônio ao mesmo tempo que querem uma vida livre na sociedade é complicada. Antes, é preciso entender porque existem regras sociais que impõem um ritual para todos os adultos, a ser seguido por toda a vida.

Como forma de impedir a subversão e deixar o sistema social "organizado" (apesar da inevitável geração de injustiças), os adultos foram obrigados a seguir uma série de rituais em suas vidas, que pouco ou nada deve variar de individuo para individuo. Esses rituais são difundidos pela mídia, consagrados pelos costumes sociais e cobrados pelos integrantes dos grupos sociais formados.

Esta série de rituais existe para que as pessoas se tornem mais confiáveis umas para as outras. Seguir a maioria é sinal de simpatia, inclusão e cooperação para a maioria das culturas mundiais, incluindo a brasileira. Por isso que há rituais. Entre esses rituais está o casamento.

Por mais romântico que possa parecer a união entre duas pessoas, vamos combinar que quando há namoro, noivado e casamento significa que uma pessoa passa a pertencer a outra, como se fosse um patrimônio. Os Cônjuges são donos uns dos outros e o sentimento de posse é inevitável. 

Contraditoriamente, as mesmas pessoas repelem a ideia de posse e afirmam que ninguém é de ninguém, mesmo se casando. O nojo que a maioria das pessoas têm do "casal grude" vem dessa ideia. Então para quê se casam? Para agradar a sociedade, ora!

Para tornar mais claro, vamos imaginar uma situação: 

O homem se casa com uma mulher de vida social intensa. O homem se considera romântico e sensível e teve poucos relacionamentos. Finalmente se casa com a mulher, mas gostaria que ela se dedicasse mais a ele. Nos finais de semana, a mulher prefere estar com amigos em bares e boates. Ela preferia que o marido estivesse junto dela nesses lugares, compartilhando os amigos, mas o homem é caseiro e prefere atividades sossegadas, a sós com a mulher. Mas para ela, os amigos são prioridade e ela não os larga de jeito nenhum, assim como a diversão frenética gerada nestes ambientes.

Isso explica muito bem esta contradição. Mas então, se o ser humano, que não é monogâmico por natureza - os costumes sociais o obrigam a ser monogâmico - não pertence a ninguém, porque não decidir pelo amor livre reivindicado pelo movimento hippie na década de 60?

Acho que deveríamos decidir entre a dedicação total {as pessoas escolhidas para nossos parceiros afetivos, ou desistamos dos matrimônios, optando por uma vida mais livre, sem os compromissos que todas as famílias têm e que obrigam um certo nível de ganância, poisa vida familiar é  muito cara para se manter.

O amor livre seria uma solução, pois seria uma democratização da vida amorosa, dando oportunidade de todas as pessoas a se relacionarem com aquelas que realmente gostam. O casamento privatiza o afeto e transforma pessoas em patrimônios uma das outras. Isso faz com que as mulheres que eu quero sejam comprometidas e só sobrem as que eu não gosto. 

No amor livre, isso não acontece, Sem donos, posso ficar com as mulheres que eu quero, nos momentos que eu quiser, sem me apossar delas, como acontece no casamento. Evitaria brigas por ciúmes, mas também evitariam os casamentos por conveniência, tirando das mulheres a oportunidade de enriquecerem com facilidade.

O amor livre estaria de acordo com o instinto poligâmico do ser humano, tornaria a vida amorosa mais democrática e acabaria com os problemas gerados pelo sentimento de posse estimulado pelo namoro e pelo matrimônio. 

Parece menos romântico, mas é o ideal enquanto aprendemos a ser humanos. O relacionamento fixo com alguém exige dedicação total de cada cônjuge, pois queiram ou não, um passa a pertencer ao outro, como um patrimônio humano.

Se quisermos nos casar com alguém, é preciso amar mais esta pessoa do que as outras. Igualar o cônjuge aos amigos é desejar a poligamia, mesmo que não haja sexo com amigos, pois aquele pessoa eleita nunca vai gostar de ser colocada em um nível igual ou inferior aos amigos de seu parceiro.

Escolham: ou se casam e dedicam exclusividade aos seus namorados e cônjuges ou assumam o amor livre, se envolvendo sem compromisso com as pessoas que encontrar, respeitando o instinto poligâmico do ser humano. 

O que não dá é essa contradição de se casar e tratar o parceiro como se fosse "mais uma migo" no meio social. Parece coisa de quem não sabe o que quer, que gosta de seguir a maioria e cumprir os rituais por ela impostos. E não há nada de romântico em cumprir regras.

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