O ser humano é, por instinto, um ser social. Mas o ser humano brasileiro é, culturalmente, ainda mais social. Aparentemente avesso a vocação à diversidade, o povo brasileiro sempre sonhou com imensas multidões fazendo a mesma coisa, numa falsa concórdia que é mais nociva do que benéfica.
A quarentena recomendada para a prevenir a contaminação da covid, esta nova doença nascida de uma guerra biológica política, irritou os brasileiros, que isolados sozinhos ou em pequenos grupos em suas casas, se sentiam incomodados com a falta de massivo convívio social da qual estavam acostumados.
Para muitos, vida social é estar no meio de multidões, fazendo a mesma coisa. As aglomerações são um item cultural tão valorizado que molda a personalidade dos brasileiros, fazendo com que gostos, ideias e costumes tenham relação quase direta ou até direta com aglomerações. Tudo que é popular é ultra-valorizado e o que é impopular, desprezado. Isso coloca rigidez nas regras sociais.
Como para muitos, sossego é sinônimo de tristeza e pequenos grupos é sinônimo de solidão, os brasileiros logo trataram de uniformizar seus pensamentos, para evitarem a solidão. Isso explica porque modismos pegam fácil no Brasil e porque a cultura alternativa é um fracasso entre brasileiros, que consideram "alternativas" tendências populares que soem um pouco esquisitas para a maioria.
Já com as tendências de altíssimo nível de popularidade, como futebol, cerveja, religiosidade, astrologia, casamento, etc., são perfeitamente institucionalizadas, se tornam "vacas sagradas" cuja reprovação se torna proibida e condenável. A voz das maiorias, mesmo quando erram, lhes dá a razão necessária para que se tornem intocáveis, imutáveis, colocadas num pedestal para serem admiradas.
Essas tendências tem muito a ver com aglomerações e isso exerce um estranho fascínio quase fetichista para os brasileiros. Como se o fato de ser seguido por imensas multidões em si oferecesse um prazer peculiar. Se já não bastasse o estereótipo de que tudo que é popular parece melhor do que o impopular, uma ideia consagrada em nosso país.
Por isso que, mesmo com a vocação para a diversidade, recusada pela maioria dos brasileiros, se observa tantas manifestações de pensamento único, sendo difícil encontrar pessoas com diferencial admirável, tendo a maioria que seguir um gado ideológico para se divertir sociabilizando, já que ainda acreditamos nesta lenda urbana consagrada de que a maioria sempre está correta.

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