As esquerdas brasileiras agora são formadas pela classe média relativamente bem remunerada. Portanto, para estas, as causas trabalhistas não interessam. Com as esquerdas deixando de lado assuntos relativos a emprego e salário, se perdeu diálogo com as classes trabalhadoras, que não enxergam nas causas identitárias algo que esteja presente em seu cotidiano.
Esta falta de diálogo com os trabalhadores e a conquista das classes médias através de assuntos que interessam mais a estas do que para aquelas, tem dado um caráter de conservadorismo enrustido às esquerdas brasileiras, que desistiram de brigar contra o sistema e lutam agora por um Capitalismo mais inclusivo, com todas as instituições intactas, incluindo os postos de poder.
A luta não é mais derrubar as instituições e sim colocar pessoas outrora excluídas nelas. Algo como, por exemplo, colocar um negro na presidência da filial brasileira de uma multinacional. Louvável, até certo ponto. Um detalhe normalmente esquecido entre os identitários se apresenta com alta possibilidade: mudada a situação do excluído, muda-se a mentalidade do excluído.
Será que não sabem os identitários que uma pessoa, antes em miséria, quando ocupa uma confortável - e bem remunerada - posição de liderança, abandona seu passado e suas convicções e passa a raciocinar como burguês? As esquerdas, que adoram futebol, não observaram os inúmeros casos de jogadores de futebol, que vieram de lugares miseráveis e hoje agem como magnatas, com estilo de vida como tais?
Sem contar que as causas identitárias nunca resolvem os conflitos de classe, pois a ideia é criar uma espécie de burguesia mais diversificada, que inclusive pode se virar contra os antigos companheiros de classe desses novos burgueses.
Os esquerdistas ingenuamente acreditam que a medida pode acabar com as desigualdades sociais, pois colocando excluídos nas lideranças das instituições podem fazê-las funcionar a favor das classes oprimidas.
Mas há tempos que temos mulheres, negros e gays, mesmo em pouca expressividade, no comando de instituições e nunca vemos mudanças na justiça social. Ao ocuparem estes cargos, estes ex-excluídos passam a defender causas individuais deles e de seus conhecidos, sem mexer um dedo para que o sistema passe a ser mais justo. Há exceções, mas impotentes para mudar o sistema como um todo.
Mas mudar o sistema não é mais interesse das esquerdas. É torná-lo mais inclusivo, mesmo funcionando da maneira como sempre funcionou e com as mesmas regras. É criar uma nova burguesia que seria mais justa em tese mas que com o tempo se mostraria igualzinha a qualquer outra classe dominante, com algumas características de postura e aparência da burguesia tradicional.
A defesa de causas identitárias acaba se mostrando um erro que pode cobrar seu preço no futuro, pois, como todo brasileiro, as esquerdas brasileiras não são prudentes e se esquecem que contribuem para que as injustiças sócio-econômicas sejam ainda mais difíceis de serem combatidas, por fugirem de seus tradicionais estereótipos.
Um grave erro esquecer as causas trabalhistas, estas de fato capazes de eliminar a disputa de classes. Criar uma burguesia diversificada de nada irá adiantar. Somente irá diversificar a luta de classes, colocando irmão contra irmão para brigarem por uma ganância que ninguém se empenhou em combater. Enquanto as injustiças sociais se perpetuam, apenas mudando de protagonistas.

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